O grande mestre Fabiano Caruana, um dos mais talentosos e novos integrantes da elite enxadrística, concedeu uma entrevista ao site chess24 onde opina sobre o desenvolvimento do match entre Magnus Carlsen e Viswanathan Anand, o ciclo do campeonato mundial, as possibilidades de vencer Carlsen e mais. A entrevista pode-se ver no seguinte link, em idioma inglês:
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terça-feira, 25 de novembro de 2014
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
A modo de balanço
A recuperação do título de
campeão mundial é um negócio para poucos. Somente Alexander Alekhine e Mikhail
Botvinnik (este último duas vezes!) recuperaram o título em enfrentamentos
diretos. O primeiro vencendo a sua própria vontade; o segundo exibindo uma
determinação de ferro quando poucos apostavam na sua vitória contra adversários
mais novos. Grandes enxadristas como Wilhelm Steinitz ou Anatoly Karpov não o
lograram, como também não o logrou Viswanathan Anand neste match revanche contra
o prodígio norueguês Magnus Carlsen. A diferencia de idade, a motivação e o
estado são responsáveis gerais do resultado. Ao menos, aplicável a este duelo
que acaba de finalizar em Sochi.
Por que vai ser lembrado este
match? Primeiro, por ser o duelo que consolidou o reinado de Magnus Carlsen, um
campeão pragmático de excelente jogo posicional. O norueguês tem agora quase dois
anos de calma antes de volver a expor seu título, em novembro de 2016 ante o
adversário que surja do torneio Candidatura a se realizar em março desse ano.
Segundo, por ter sido a despedida
de um gladiador do tabuleiro em competições pelo título mundial. O que não
implica que Viswanathan Anand se despida do xadrez de alto nível. Não isso, mas
sim parece difícil que ganhe mais uma oportunidade para enfrentar a Carlsen: já
a sua vitória no Candidatura 2014 foi uma surpresa.
Além disso, outros destaques do
duelo que acaba de finalizar são: a soneca de Carlsen na partida 8 (alguns
acharam muito deselegante da sua parte; seria interessante conhecer hoje a
opinião de Anand ao respeito); o incrível duplo erro na partida 6, que pode ter
modificado a sorte do match; a fortaleza erigida por Anand no final de torre e
dois peões contra cavalo e quatro peões na partida 7; a excelente preparação
teórica mostrada pelos protagonistas em algumas partidas (Anand no Gambito de
Dama Declinado, variante Blackburne, na 3; Carlsen, na mesma variante, na 8,
são exemplos); a atmosfera tranquila do duelo –menos público e menos imprensa
que no anterior duelo de Chennai-; a boa transmissão ao vivo com os comentários
de Peter Svidler, Sopiko Guramishvili e convidados como Vladimir Kramnik e Ian
Nepomniachtchi (na parte inglesa da transmissão; o duelo também foi comentado
em idioma russo); por último, a consolidação do esquema de campeonato mundial
da FIDE, que depois de tentativas as vezes bizarras voltou ao sistema mais
razoável.
domingo, 23 de novembro de 2014
Carlsen manteve o título após vencer a 11a partida
O campeão mundial Magnus Carlsen reteve o título após vencer ao desafiante Viswanathan Anand na undécima partida do match realizado em Sochi, alcançando assim uma vantagem decisiva (6½-4½).
A partida começou no familiar sendeiro da Ruy Lopez Berlinense, variando o desafiante com relação aos jogos prévios no lance 9...Bd7. Mostrando um jogo mais dinâmico (15...g5!; 16...b5!) que nas anteriores experiencias com as peças pretas, Anand obteve uma posição interessante, porém no momento crítico começou a jogar de forma duvidosa (por exemplo, depois da entrega de qualidade, ele devia tomar em b4 com o peão a), o que foi explorado pelo norueguês com a sua reconhecida técnica (36.Txc7+! foi um bonito detalhe).
O resultado global do match é justo considerando o mostrado por ambos os protagonistas. Anand ofereceu uma resistência muito superior à feita no match prévio em Chennai, mas ainda faltou alguma postura mais agressiva na escolha das aberturas. Carlsen, sem jogar brilhante, teve a técnica necessária e o timing para controlar o duelo. Agora deve expor seu título somente no 2016.
Carlsen,Magnus
(2863) - Anand,Viswanathan (2792)
WCh 2014 Sochi RUS (11),
23.11.2014
1.e4 e5
2.Cf3 Cc6 3.Bb5 Cf6 4.0–0 Cxe4 5.d4 Cd6 6.Bxc6 dxc6 7.dxe5 Cf5 8.Dxd8+ Rxd8
9.h3 Bd7 10.Cc3 h6 11.b3 Rc8 12.Bb2 c5 13.Tad1 b6 14.Tfe1 Be6 15.Cd5 g5 16.c4
Rb7 17.Rh2 a5 18.a4 Ce7 19.g4 Cg6 20.Rg3 Be7 21.Cd2 Thd8 22.Ce4 Bf8 23.Cef6 b5
24.Bc3 bxa4 25.bxa4 Rc6 26.Rf3 Tdb8 27.Re4 Tb4
28.Bxb4 cxb4 29.Ch5 Rb7 30.f4
gxf4 31.Chxf4 Cxf4 32.Cxf4 Bxc4 33.Td7 Ta6 34.Cd5 Tc6 35.Txf7 Bc5
36.Txc7+ Txc7
37.Cxc7 Rc6 38.Cb5 Bxb5 39.axb5+ Rxb5 40.e6 b3 41.Rd3 Be7 42.h4 a4 43.g5 hxg5
44.hxg5 a3 45.Rc3 1–0
sábado, 22 de novembro de 2014
Instancias decisivas no duelo Carlsen - Anand
![]() |
| Magnus utilizou o dia livre para relaxar jogando algo de basquete |
A partida de amanha, undécima do
match, promete ser uma das mais interessantes do duelo, pela simples razão que
Viswanathan Anand está obrigado a descontar a vantagem no placar e nesta
partida, apesar de levar as peças pretas, deveria arriscar mais um pouco. O
campeão, Magnus Carlsen, pode contar com isso para tentar jogar pela vitória,
um resultado que fecharia o match.
A lógica indica que esse deve ser
o rumo que tome a partida. O outro plano disponível de Anand –assegurar com as
peças pretas, jogando por exemplo uma Ruy Lopez Berlinense, para tentar a
vitória na última partida, quando o indiano levaria as peças brancas- parece
mais arriscado: estaria jogando todo a uma bala –um tiro no escuro-.
Obviamente jogar algo mais dinâmico
de pretas ante Carlsen não é uma tarefa simples, e até o momento –contabilizando
os dois duelos, o de Chennai 2013 e o presente- Anand não o logrou. Uma forma
de tentar imprimir dinamismo no jogo do desafiante consistiria na utilização de
um diferente esquema de abertura –por exemplo, uma Pirc-, mas essa estratégia também
envolve riscos. Mais provável parece que o dia livre e alguns dos prévios
tinham sido utilizados pela equipe do desafiante para procurar alguma brecha nos
esquemas sicilianos (e anti-sicilianos) que pode chegar a jogar o campeão.
Depois é tentar e se não da certo, ainda teria uma última chance.
Um detalhe que vale a pena
observar é que Carlsen não se limita a jogar seguro contando com o ponto de
vantagem. A sua escolha da última partida –uma Grünfeld- mostra que o norueguês
luta também no campo psicológico, utilizando opções dinâmicas que em um caso
como o presente, mais uma história de matar ou morrer, pode lhe dar a vitória.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Anand fica algo melhor na abertura, mas não aproveita a chance
A partida 10 do match pelo título mundial entre Magnus Carlsen e Viswanathan Anand também finalizou em empate -o quarto consecutivo-, mais nesta oportunidade, diferente das prévias, o desafiante obteve uma vantagem de abertura.
Como habitual em todo este duelo, o mestre indiano abriu o jogo com 1.d4. O campeão recorreu à defesa Grünfeld, que já tinha empregado na primeira partida do match, se produzindo uma interessante luta estratégica entre o centro de peões branco e a pressão das peças pretas sobre esse centro em uma das variantes mais conhecidas da abertura.
No ingresso ao meio-jogo, Anand tinha conseguido alguma vantagem, fruto de um peão livre central que restringia as peças adversárias, enquanto Carlsen podia confiar no contrajogo a longo prazo da sua maioria de peões na ala de dama.
No momento onde o desafiante podia começar a trabalhar na concretização da vantagem, em vez das linhas críticas escolheu um lance inofensivo, permitindo equilibrar ao instante ao campeão, que não perdeu a oportunidade. Em poucos lances mais, o jogo se encaminhou ao empate.
O resultado permite a Carlsen manter a sua vantagem de um ponto no placar, a falta de somente duas partidas. Enquanto amanha vai ser o último dia livre, no domingo teremos a partida 11, com o campeão mundial levando as brancas. Uma vitória dele fecha o duelo; já o empate ou uma derrota deixa a sorte do match reservada para a última partida.
Anand,Viswanathan
(2792) - Carlsen,Magnus (2863)
WCh 2014 Sochi RUS (10),
21.11.2014
[Notas extraídas dos comentários do MI Luis Rodi para Xadrez Diário]
1.d4 Cf6
2.c4 g6 3.Cc3 d5 4.Cf3 Bg7 5.Db3 dxc4 6.Dxc4 0–0 7.e4
A posição base da
variante Russa, um dos principais esquemas brancos contra a Grünfeld. No
tabuleiro temos uma verdadeira batalha de estilos, com as brancas construindo
um centro clássico enquanto as pretas o enfrentam com critério hipermodernista.
Em ambos os casos se trata de controlar o centro; o que varia é o critério de
como realizar essa tarefa, se com ocupação direta ou com pressão de peças
7...Ca6
A variante Prins era uma velha preferencia de Garri Kasparov nesta posição.
Logo que apareceu no tabuleiro, e lembrando que o Ogro de Baku foi no seu tempo
treinador de Carlsen, se especulou com a sua possível participação na
preparação desta partida. Isto pode ser real ou não, desde que a Prins é hoje
uma das duas réplicas mais populares nesta posição -a outra é a variante
Húngara, 7...a6; ambas ultrapassaram nas preferencias práticas ao velho lance
principal 7...Bg4 que fora favorito de Smyslov- e bem pode ter sido a escolha
para este caso concreto do time do campeão
8.Be2 c5 9.d5 e6 10.0–0 exd5 11.exd5
A
aparição de um peão livre no centro é uma das características de muitas das
linhas teóricas da Grünfeld. Na presente posição, esse peão está ademais
isolado, o que dificulta a avaliação -pode ser uma fortaleza ou uma fraqueza,
dependendo da colocação das peças restantes e o grau de coordenação-
11...Te8 12.Bg5 h6 13.Be3 Bf5 14.Tad1 Ce4 15.Cxe4 Bxe4N
15...Txe4 16.Dc1 Cb4 17.d6 com alguma iniciativa
branca em Biedermann - De Carlos Arregui, corr 2013
16.Dc1!? Df6 17.Bxh6 Dxb2 18.Dxb2 Bxb2
Com as peças de ambos os lados razoavelmente
ativas, a questão passa por saber qual das formações de peões é preferível: a
das brancas, com o peão livre central, ou a das pretas, com maioria de peões
ligados na ala de dama. Pelo momento, o peão d parece o mais perigoso, o que em
definitiva oferece a iniciativa ao primeiro jogador -porém esse lado deve jogar
enérgico; o próximo lance de Anand mostra que o desafiante entendeu isso-
19.Cg5!
Bd4 20.Cxe4
A escolha mais lógica, ganhando o par de bispos e
conservando o peão livre no centro. Anand se tomou uma dúzia de minutos para
este lance, porque tinha uma interessante alternativa no movimento 20.Bb5!?
20...Txe4 21.Bf3 Te7 22.d6 Td7 23.Bf4 Cb4
24.Td2?!
O ponto onde Anand deixa escapar a sua vantagem. "Eu estou
surpreendido com esse lance" (Peter Svidler); "Parece lento"
(Ian Nepomniachtchi). Melhores possibilidades oferecem as ideias 24.a3 ou 24.Tfe1
24...Te8=
As pretas não têm nem a sombra de um
problema aqui, e uns vinte minutos mais no relógio
25.Tc1 Te6 26.h4 Be5
27.Bxe5 Txe5 28.Bxb7 Txb7 29.d7 Cc6 30.d8D+
"Uma
muito estranha decisão de Anand. O lance 30.f4, em vez da promoção, ao menos
teria colocado uma pequena armadilha" (Teimour Radjabov) No entanto, ainda
assim a posição é equilibrada: 30.f4 Tf5 31.g4 Txf4 32.Txc5 Txg4+ 33.Rf2
embora as pretas têm que achar 33...Tbb4! 34.Txc6 Tbf4+ 35.Re3 Te4+ com
repetição de lances
30...Cxd8 31.Txd8+ Rg7 32.Td2 ½–½
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
O Muro de Berlim outorga mais um empate cômodo a Anand
Rápido e curto foi o desenvolvimento da nona partida entre Magnus Carlsen e Viswanathan Anand correspondente ao match pelo título mundial que ambos os enxadristas disputam em Sochi. Para o campeão, com uma vantagem de um ponto no placar, o resultado o deixa mais perto do objetivo, enquanto para o desafiante foi também um bom resultado, já que nas três partidas restantes vai levar as peças brancas em duas delas.
O jogo se desenvolveu na linha denominada Muro de Berlim da variante Berlinense da Ruy Lopez, conhecida por ser uma das opções mais sólidas do xadrez magistral moderno. Com relação ao jogo 7, Carlsen variou com o lance 11.Ce2 (em vez de 11.Bf4), porém o desafiante obteve um fácil equilíbrio e Carlsen, que tinha investido mais tempo em considerar os pormenores da abertura, preferiu repetir lances, se contabilizando logo o empate mais rápido do duelo.
Amanha, desde as 10.00 (horário Brasil) tem lugar a partida 10, com Anand levando as peças brancas.
Carlsen,Magnus
(2863) - Anand,Viswanathan (2792)
WCh 2014 Sochi RUS (9),
20.11.2014
1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 Cf6 4.0–0 Cxe4 5.d4
Cd6 6.Bxc6 dxc6 7.dxe5 Cf5 8.Dxd8+ Rxd8 9.h3 Re8 10.Cc3 h5 11.Ce2 b6 12.Td1 Ba6
13.Cf4 Bb7
14.e6 Bd6 15.exf7+ Rxf7 16.Cg5+ Rf6 17.Ce4+ Rf7 18.Cg5+ Rf6 19.Ce4+
Rf7 20.Cg5+ ½–½
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
De recuperações
A sequência compreendida entre as
partidas 7 e 8 (as primeiras da segunda parte do match, com as cores invertidas
com relação à primeira parte) podem se denominar de recuperação, anímica e
esportiva.
Na primeira delas, Viswanathan
Anand se mostrou recuperado da debacle da partida prévia (dois dias trás)
quando deixou passar um golpe tático evidente que teria mudado a sorte do jogo –e
talvez do match-. Como explicara oportunamente, o erro de Anand teve maior peso
que o prévio de Carlsen, por duas razões: primeiro, porque o mestre indiano
estava inferior e necessitava estar aberto e muito alerta a qualquer milagre. E
também porque ao entender o que tinha acontecido não reagiu bem e perdeu sem
opor resistência. Mas na seguinte partida, e sendo um gladiador do tabuleiro, o
desafiante enfrentou a pressão no tabuleiro e obteve um empate valioso, na que
é até aqui a partida mais longa do duelo.
Na seguinte partida foi Magnus
Carlsen quem se mostrou recuperado da dura derrota na terceira rodada.
Recuperado e capaz de desafiar a Anand no território onde tem fama de ser
melhor: a preparação prévia da partida. Porque o campeão foi capaz de
surpreender teoricamente com sua escolha de abertura e se manter dentro dos
seus analises até passado o lance vinte, obtendo quase uma hora de vantagem no
relógio e finalmente um empate fácil.
O ânimo dos dois mestres está,
por assim dizer, reforçado nestes últimos dois jogos. Uma excelente noticia
para os amadores de todo o mundo, que com certeza vão assistir a quatro
verdadeiras batalhas no que segue.
Obviamente, e a medida que o
match avança, o ponto de vantagem que tem o campeão pesa mais. O desafiante,
ainda com duas partidas levando as peças brancas, provavelmente as empregue
para tentar a vitória, enquanto um esquema mais cauteloso deve ser aplicado
quando leva as pretas. Na nona partida, por exemplo, que se disputa este 20 de
novembro desde as 10.00 horas (horário de Brasil), e que pode ter outra Ruy
Lopez Berlinense no tabuleiro. Também há que dar margem à possibilidade que Anand
tente obter algo mais de pretas, utilizando algum esquema mais ambicioso, porém
provavelmente seja ainda cedo para medidas extremas.
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