domingo, 16 de novembro de 2014

O momento mais difícil para Anand


Justo na metade do match, a primeira grande crise se desata no campo do desafiante, que sofreu uma dura derrota na sexta partida: pelo resultado em se e por ter perdido um lance que teria volcado a sorte da partida no seu favor.
O dia livre parece magro demais para se recuperar nos dois aspectos –anímico e esportivo- considerando ademais que o campeão vai repetir brancas –para minimizar os efeitos de jogar com as peças pretas depois de um dia livre, a metade do duelo se modifica a sequência de cores-.
A recuperação anímica é difícil, ainda em casos de enxadristas com tanta experiência e fortaleza anímica como Anand. É que o erro por ele cometido é ainda mais difícil de explicar que o prévio de Carlsen. O do mestre norueguês pode ter surgido de subestimar os recursos adversários em uma posição que parecia de vantagem muito cômoda, na qual somente dois resultados eram possíveis. Sobretudo porque a luta, maiormente estratégica, não parecia apresentar temas táticos. Mas quando Carlsen cometeu o erro 26.Rd2 colocando seu rei em uma casa desafortunada –o campeão imediatamente percebeu a magnitude do problema-, Anand não somente não considerou a réplica correta -26...Ce5, uma tática relativamente simples- tanto como perdeu a única possibilidade ativa da partida por jogar muito rápido –empregou apenas um minuto para seu lance 26...a4-, uma situação mais de capivara que de grande mestre. A sua posterior descoberta da chance perdida fiz que uma posição inferior, mas possível de ser defendida, se transforme rapidamente em ruinas.

Se a parte psicológica não é fácil de remontar, a esportiva apresenta outros problemas, relacionados a como responder a abertura de peão rei do campeão. Anand mudou de defesa na quarta partida, sem repetir a Ruy Lopez Berlinense da segunda onde tinha sofrido uma derrota para evitar lembranças ruins. Será o momento de mudar novamente –talvez regressando à Ruy Lopez-, procurando uma partida sólida, de cara ao empate, para tentar uma recuperação nas partidas de brancas? Ou o laboratório do desafiante vai achar novas trilhas em alguma das várias Sicilianas? O primeiro cenário parece mais provável.

sábado, 15 de novembro de 2014

Carlsen ganha em acidentada partida

A marcação férrea da imprensa norueguense sobre o campeão mundial, depois da partida 6
O campeão mundial Magnus Carlsen chega à metade do duelo pelo título com vantagem após vencer na sexta partida, que teve um desenvolvimento acidentado.
Por decisão unanime, os colegas da elite criticaram a escolha de abertura de Viswanathan Anand para a sexta partida: "Odeio absolutamente a escolha de abertura de Anand" (Hikaru Nakamura); "A escolha de abertura de Anand foi surpreendente. Se não leva em forma direta ao empate, é uma posição desagradável para jogar contra Carlsen" (Pentala Harikrishna); "Terrível escolha de Anand hoje" (Teimour Radjabov).
O desafiante ficou em uma posição algo inferior já desde a saída da abertura, uma Siciliana Paulsen (Kan) que as brancas combateram com uma estrutura Maroczy. Embora a vantagem do primeiro lance leva em casos a posições algo melhores para o primeiro lado, estas podem gradativamente se equilibrar, mas neste caso a posição do mestre indiano era passiva, e somente dois resultados podiam acontecer na teoria.
No entanto, e quando Carlsen estava em pleno trabalho de consolidação e concretização da sua vantagem, um grave erro (26.Rd2?) podia ter permitido a Anand ganhar material mediante uma tática simples (26...Ce5!), e com isso virar a avaliação do jogo. Porém o mestre indiano respondeu rápido  com 26...a4 (aproximadamente depois de um minuto de meditação) e perdeu a chance. Ambos os mestres perceberam logo o que tinha acontecido, e isso modificou o curso da luta, sobretudo para o desafiante, que não se recuperou animicamente e ofereceu escassa resistência até o fim da partida.
O match está agora 3,5 x 2,5 para Carlsen, que repete brancas na sétima partida, a se realizar na próxima segunda desde as 10.00 (horário de Brasil).

Carlsen,Magnus (2863) - Anand,Viswanathan (2792)
WCh 2014 Sochi RUS (6), 15.11.2014
[Notas extraídas dos comentários do MI Luis Rodi para Xadrez Diário]

1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 a6 5.c4 Cf6 6.Cc3 Bb4 


A continuação mais ativa. O segundo lado tem duas alternativas de grande popularidade em 6...Dc7 e 6...d6 -estes foram os lances que teve que enfrentar Carlsen na primeira parte do século, nas poucas oportunidades onde escolheu o lance 5.c4 -posteriormente, sua prática se transladou aos mais populares 5.Bd3 e 5.Cc3- 

7.Dd3 Cc6 

Uma escolha difícil de explicar desde que a posição resultante é algo deprimente para o segundo jogador. No nível magistral, as pretas tiveram melhores resultados com as opções 7...Dc7 e 7...d5 

8.Cxc6 dxc6 9.Dxd8+ Rxd8 10.e5 Cd7N 

10...Ce4 11.a3 Bxc3+ 12.bxc3 Rc7 13.Be3 b6 14.Bd3 Cc5 15.Bxc5 bxc5 16.0–0–0ƒ Flores Rios - Lemos, Villa Martelli 2008. Comparado com este exemplo, o cavalo em d7 de Anand fica menos exposto, mas a posição é de todas formas algo passiva

11.Bf4 Bxc3+ 

Os benefícios de deteriorar a estrutura branca na ala de dama não se comparam à permanência deste bispo no tabuleiro, considerando que as casas negras precisam de cuidado

12.bxc3 Rc7 13.h4² 


Apesar da avaliação humilde dos computadores, as brancas apresentam nesta posição uma série de vantagens: mais espaço no centro e na ala de rei, peças com possibilidades mais ativas no geral e par de bispos. Considerando a estrutura simétrica, o valor negativo dos peões dobrados das brancas na ala de dama é mínimo. "A escolha de abertura de Anand foi algo esquisita para mim; as brancas estão muito melhores" (Vladimir Kramnik, que foi um dos comentaristas online do site oficial junto com seu colega Peter Svidler) 

13...b6 14.h5 h6 15.0–0–0 Bb7 16.Td3 c5 17.Tg3 Tag8 18.Bd3 Cf8 19.Be3 g6 20.hxg6 Cxg6 21.Th5 

As brancas mantem uma cômoda vantagem. Contando com peças muito mais ativas, a estrutura das pretas é a que mais sofre 

21...Bc6 22.Bc2 Rb7 23.Tg4!? 

"Muito astuta; pode ser um dia duro para Anand" (Anish Giri). O maior problema de Anand é que Carlsen pode jogar esta posição sem correr absolutamente nenhum risco. "Não sei como as brancas podem ganhar esta posição, mas Anand está tão paralisado que quase nem pode se mexer sem pendurar o peão h" (Nigel Short). Por enquanto, o peão h está defendido em forma indireta pela pressão sobre e5 

23...a5 24.Bd1 Td8 25.Bc2 Tdg8 

Como continuar? Magnus elabora um plano com translado do rei ao outro setor do tabuleiro, mas a implementação da ideia acaba sendo um grande erro! 

26.Rd2? 


Um lance realizado após pouco mais de minuto de meditação. Depois da partida se recomendou outro caminho para o rei: 26.Rd1!? porém nesse caso as pretas podem lutar pelo equilíbrio com 26...Cf8!? 27.Tf4 f5!?; Talvez 26.Tg3!? Ce7 27.Txg8 Txg8 28.g3 Cg6 29.Bd1² com ideia de Be2

26...a4? 

O leitor pode-se perguntar: como é possível que erros deste tipo sejam cometidos no nível mais alto do xadrez mundial? No presente caso, o melhor argumento é que o caráter da luta -preponderantemente posicional- não permite suspeitar que recursos táticos como o que perde o desafiante estejam disponíveis. E como o próprio Anand explicou, ele estava muito concentrado com o plano de avanço do peão a... de qualquer jeito, o mestre indiano empregou apenas um minuto para realizar seu lance 26 (jogando nessa velocidade é mais fácil perder um recurso como o que teve na partida). Pelo lado de Carlsen o erro tem uma explicação razoável: o jogador que conta com a vantagem muitas vezes tende a relaxar, sobretudo se a posição não apresenta perigos evidentes à segurança do rei. Em fim, Anand perde uma grande chance ao não jogar 26...Cxe5! que teria ganho material: 27.Txg8 Cxc4+ 28.Rd3 (28.Re2 Txg8 29.g3 Bd5µ) 28...Cb2+ 29.Re2 Bb5+ 30.Rf3 Txg8 31.g3 (31.Bxh6 Bc6+ 32.Re2 Txg2–+) 31...Bc4µ

27.Re2 

Agora o tema tático foi embora, e parece ser o momento em que ambos os mestres descobriram o lapsus. Para Anand teve consequências muito negativas, pois na fase que segue oferece uma resistência muito fraca. "Ainda se a posição pode ser defendida, depois do acontecido você deve se sentir horrível. É muito melhor não perceber o que aconteceu" (Peter Svidler). Consultado sobre se é possível se recuperar de um golpe como este, o ex-campeão mundial Vladimir Kramnik respondeu: "A minha experiência mostra que não se recupera" 

27...a3 28.f3! Td8 29.Re1 Td7 30.Bc1 Ta8? 

30...Thd8! oferece melhores chances de contrajogo 

31.Re2 Ba4 


32.Be4+ Bc6? 

"Vishy tinha que entregar qualidade. Fácil de dizer quando estou sentado confortavelmente com um copo de vinho e um engine. Mas agora as pretas estão perdidas" (Nigel Short) 32...Ra7! era a última chance. Uma possível continuação é 33.Bxa8 Rxa8 34.Bxa3 Td1 35.Txh6 Ta1 36.Re3 Txa2 37.Bc1 Cxe5 38.Tg7 Cxc4+ 39.Rf4±

33.Bxg6 fxg6 34.Txg6 Ba4 35.Txe6 Td1 36.Bxa3 Ta1 37.Re3 Bc2 38.Te7+ 1–0

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Carlsen obtém um cômodo empate de pretas


A quinta partida do match pelo campeonato mundial que se realiza em Sochi, Rússia, teve outra divisão do ponto, mas desta vez em jornada tranquila para o campeão mundial Magnus Carlsen, que se mostrou recuperado da derrota no terceiro jogo onde levando as peças pretas caiu na preparação do desafiante Viswanathan Anand. Hoje, Carlsen empregou uma linha menos usual da defesa Índia de Dama, logrando um equilíbrio cômodo desde os primeiros lances. Apesar da linha de abertura não esperada, Anand resolveu essa fase sem apresentar sintomas de surpresa e até introduz uma novidade, que também foi bem enfrentada por Carlsen, no que é uma mostra da profundidade que a preparação dos melhores do mundo alcança.
O jogo parecia se encaminhar a um rápido empate, mas a entrega de peão do desafiante com o lance 20.Cd5 -e a posterior aceitação de Carlsen- adicionaram algum dramatismo à luta, derivando em uma posição onde as brancas conquistaram uma ligeira vantagem teórica -talvez difícil ou impossível de concretizar-. Uma rápida liquidação de material na ala de dama entregou um final inofensivo que logo foi declarado empate.
Com este resultado, o placar segue equilibrado em dois pontos e meio. Magnus Carlsen leva as brancas na próxima partida, este sábado desde as 10.00 (horário de Brasil).

Anand,Viswanathan (2792) - Carlsen,Magnus (2863)
WCh 2014 Sochi RUS (5), 14.11.2014

1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cf3 b6 4.g3 Bb4+ 5.Bd2 Be7 6.Cc3 Bb7 7.Bg2 c6 8.e4 d5 9.exd5 cxd5 10.Ce5 0–0 11.0–0 Cc6 12.cxd5 Cxe5 13.d6 Cc6 14.dxe7 Dxe7 15.Bg5 h6 16.d5 Ca5 17.Bxf6 Dxf6 18.dxe6 Dxe6 19.Te1 Df6 


20.Cd5 Bxd5 21.Bxd5 Tad8 22.Df3 Dxb2 23.Tad1 Df6 24.Dxf6 gxf6 25.Te7 


25...Rg7 26.Txa7 Cc6 27.Tb7 Cb4 28.Bb3 Txd1+ 29.Bxd1 Cxa2 30.Txb6 Cc3 31.Bf3 f5 32.Rg2 Td8 33.Tc6 Ce4 34.Bxe4 fxe4 35.Tc4 f5 36.g4 Td2 37.gxf5 e3 38.Te4 Txf2+ 39.Rg3 Txf5 ½–½ 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Um dilema para Carlsen


A bola, agora, está no campo do campeão. Os últimos acontecimentos viraram a sorte do duelo, e se no anterior dia livre Magnus Carlsen levava a vantagem, tanto no placar quanto no aspecto psicológico, hoje se pode dizer que a situação mudou drasticamente: o desafiante empatou o match e a vantagem anímica é agora dele, pela forma na qual se desenvolveram os jogos 3 e 4.
Nestas horas, a principal incógnita radica na réplica que a equipe do campeão mundial está preparando para enfrentar a abertura de peão dama de Viswanathan Anand. O mestre indiano mostrou uma excelente preparação e técnica no campo das aberturas fechadas, no que representa uma melhora de sua estratégia com relação ao match prévio, quando insistiu com 1.e4 para se chocar uma e outra vez contra a Ruy Lopez Berlinense do então desafiante. Nesse duelo de Chennai, a única partida onde Anand pode criar perigo real foi a nona, que pela primeira vez teve a 1.d4 como seu primeiro lance. O destronado monarca tomou nota disso e neste match seu 1.d4 está fazendo sofrer ao mestre norueguês, que deve achar uma réplica confiável.

Vamos especular: jogar a Grünfeld, como na primeira partida, parece arriscado. Uma coisa é empregar uma abertura que o adversário não espera e outra bem diferente enfrentar a uma linha muito bem preparada dentre as várias que as brancas dispõem contra essa defesa. Voltar ao Gambito de Dama é possível, com os reajustes do caso (as pretas podem melhorar em varias oportunidades sobre a partida 3), porém psicologicamente difícil dada a lembrança do resultado negativo. Índia de Dama? Pode ser. Porém qualquer aposta é válida: Carlsen sempre mostrou uma grande flexibilidade para jogar qualquer tipo de esquema. O único que deve fazer é cair fora do laboratório do desafiante, que de acordo com Peter Svidler é um dos cinco melhores de todos os tempos na arte de preparar partidas e se antecipar às escolhas do adversário.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Empate na quarta partida deixa placar igualado


A quarta partida do match pelo título mundial que se realiza na cidade russa de Sochi entregou um lutado empate entre o campeão Magnus Carlsen e o desafiante Viswanathan Anand. O mestre norueguês, que levou as peças brancas, voltou a abrir com peão rei, enquanto o seu adversário, mais confiante depois da vitória do día prévio, respondeu com a defesa Siciliana, a mais agressiva das possíveis réplicas pretas. Depois da tradicional 2.Cf3, o mestre indiano escolheu o lance 2...e6, que é o mais resistente contra as diversas anti-Sicilianas. Magnus, considerando a qualidade da preparação do adversário, não quis observar o que ele tinha previsto para o caso de 3.d4, e continuou com uma das poucas anti-Sicilianas disponíveis na ordem: 3.g3. O lance pode dar passagem ao conhecido Ataque Índio de Rei, porém logo ambos os mestres trilhavam uma muito pouco usual linha, onde a estrutura inferior das pretas (pelo peão isolado em d5) se compensava com a grande atividade das peças pretas. 9...Bg4 foi a novidade da partida, em vez do 9...0-0 da partida Short - Caruana, Wijk aan Zee 2010
O jogo foi progredindo, e as simplificações produzidas entregaram uma posição onde as pretas forma trocando fraquezas estruturais (peões colgantes após um cambio em c6, depois disso um peão isolado em c6 que se transladou logo a d5) porém mantendo atividade. No final de dama e cavalo resultante, o peão d das pretas seguia isolado, mas nessa fase já era difícil saber se era uma fraqueza enquanto isolado ou uma possível fortaleza ao ser livre. Um posterior cambio dos cavalos deixou uma posição totalmente equilibrada, e logo os contendentes assinaram o empate.
O placar está empatado em dois pontos, e o match continua na sexta, com o desafiante levando as peças brancas. Amanha quinta é dia livre, com muito trabalho no campo de Carlsen, que tem que pensar acerca de como responder o peão dama do mestre indiano, abertura onde o ex-campeão mostrou uma grande preparação. 

Carlsen,Magnus (2863) - Anand,Viswanathan (2792)
WCh 2014 Sochi RUS (4), 12.11.2014

1.e4 c5 2.Cf3 e6 3.g3 Cc6 4.Bg2 d5 5.exd5 exd5 6.0–0 Cf6 7.d4 


7...Be7 8.Be3 cxd4 9.Cxd4 Bg4 10.Dd3 Dd7 11.Cd2 0–0 12.C2f3 Tfe8 13.Tfe1 Bd6 14.c3 h6 


15.Df1 Bh5 16.h3 Bg6 17.Tad1 Tad8 18.Cxc6 bxc6 


19.c4 Be4 20.Bd4 Ch7 21.cxd5 Bxd5 22.Txe8+ Txe8 23.Dd3 Cf8 


24.Ch4 Be5 25.Bxd5 Dxd5 26.Bxe5 Dxe5 27.b3 Ce6 28.Cf3 Df6 29.Rg2 Td8 30.De2 Td5 


31.Txd5 cxd5 32.Ce5 Df5 33.Cd3 Cd4 34.g4 Dd7 35.De5 Ce6 36.Rg3 Db5 37.Cf4 Cxf4 38.Rxf4 Db4+ 39.Rf3 d4 


40.De8+ Rh7 41.Dxf7 Dd2 42.Df5+ Rh8 43.h4 Dxa2 44.De6 Dd2 45.De8+ Rh7 46.De4+ Rh8 47.De8+ Rh7 ½–½

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Anand se recupera com uma bonita vitória


A terceira partida do match pelo título mundial entre o campeão Magnus Carlsen e Viswanathan Anand, que se disputa em Sochi, Rússia, foi um grande sucesso para o desafiante, que aplicou a sua preparação caseira para obter uma boa posição desde a abertura (uma variante Blackburne do Gambito de dama declinado). Carlsen pareceu não conhecer em profundidade o território -se especula que foi por ter seguido linhas concretas to-madas de uma linha particular da base de dados em vez de estudar as ideias gerais da posição analisando modelos de posições semelhantes-, o que se evidenciou em um grande consumo do tempo. Anand colocou suas peças esta vez com acerto, tendo como epicentro das suas ações um perigoso peão passado. Em apuro de tempo, Carlsen comete um erro que define a luta, mas a sua posição era inferior.
Amanha (desde as 10.00 AM horário Brasil) se realiza a quarta partida, com o campeão levando as brancas e respondendo à principal questão acerca de como reagir ao resultado adverso.

Anand,Viswanathan (2792) - Carlsen,Magnus (2863) 
WCh 2014 Sochi RUS (3), 11.11.2014
[Notas extraídas dos comentários do MI Luis Rodi para Xadrez Diário]

1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cf3 d5 4.Cc3 Be7 5.Bf4 

Uma das variantes de moda no Gambito de Dama declinado, a Blackburne ganhou a sua atual popularidade quando as pretas começaram a achar caminhos diretos ao equilíbrio nas variantes Tartakower e -especialmente- a Lasker. Anand é um especialista nesta última variante -com ela obteve uma importante vitória no seu match ante Topalov- 

5...0–0 6.e3 Cbd7 7.c5 c6 


O lance mais usual. Uma opção importante -a segunda em popularidade- é 7...Ch5 como empregado alguns dias trás na partida Aronian - Kramnik, Moscou (memorial Petrosian) 2014

8.Bd3 

Um momento interessante. Anand se decide por este desenvolvimento -a ideia mais habitual nesta posição- em vez do recentemente popular -na elite- 8.h3 que a teoria considera a última palavra na linha, por duas importantes razões: a) se preserva o bispo de casas negras de possíveis tentativas de troca; b) em algumas linhas, as pretas jogam ...Ba6 e se produz a troca de bispos de casas brancas nesse ponto. Deixar o bispo em f1 momentaneamente pode salvar esse tempo. No entanto, e longe desses detalhes teóricos, para a nossa partida tem importância que sob essa ordem se jogaram partidas que acabaram sendo referência -por similitude- com a presente

8...b6 9.b4 a5 10.a3 Ba6 11.Bxa6 Txa6 12.b5 cxb5 13.c6 

O peão passado é muito perigoso. A velocidade com a qual o mestre indiano realizou estes lances mostra que todo forma parte da sua preparação 

13...Dc8 14.c7 b4 15.Cb5 a4 


A recomendação teórica. As pretas também têm algo a dizer com os seus peões avançados... 

16.Tc1 Ce4 17.Cg5 

17.Cd2 é a alternativa. Com o peão branco em h3 (proveniente da linha 8.h3) há uma partida Leitão - Milos, São Paulo 2004 com esta manobra. O leitor entende que neste esquema o estudo se realiza por ideias e não seguindo as partidas da base de dados de uma continuação concreta 

17...Cdf6 18.Cxe4 Cxe4 

Ambos os mestres seguem a teoria, consistente neste ponto na partida Aronian - Adams, Bilbao 2013. A alternativa 18...dxe4 foi sugerida pelo grande mestre holandês Edwin L´Ami, que aporta a continuação 19.Cd6 Bxd6 20.Bxd6 b3 21.Bxf8 Rxf8 "com excelente compensação"

19.f3 Ta5 


20.fxe4!N 

Podemos denominar a este lance como meia novidade? É que existe na posição irmã com o peão branco em h3 (em vez de h2, como na partida), embora nesta posição concreta não tinha sido utilizado. A mencionada partida entre Aronian e Adams continuou em seu lugar com 20.De2?! onde as pretas não têm nem a sombra de um problema após 20...Dd7

20...Txb5 21.Dxa4 Ta5 22.Dc6 bxa3 23.exd5 Txd5 24.Dxb6² Dd7 25.0–0 

Anand segue na trilha dos jogos precedentes (com h3), especialmente Tomashevsky - Riazantsev, Rússia ch 2008. No entanto aqui tinha alternativas; uma delas a recomendação de Radjabov, [25.Da6!? que pode continuar com 25...Tc8 (25...Dc8 26.Dc4 Ta5 27.0–0±) 26.Tb1! onde L´Ami aporta a linha 26...Txc7 27.Tb8+ Bd8 28.Bxc7 Dxc7 29.Tc8± e diferente aos antecedentes com o lance h3, as pretas não têm um xeque em g3!

25...Tc8 26.Tc6! g5 


"Magnus se aventura a jogar uma Grob diferida, com cores opostos, mas... 25 lances tarde" (Jonathan Rowson). Este avanço pode ser considerado o primeiro movimento novo (!). Na mencionada partida entre Tomashevsky e Riazantsev (com peão em h3 em vez de h2), as pretas tinham jogado 26...h6 onde 27.Tfc1 ofereceu uma cômoda vantagem às brancas

27.Bg3 (!) 

Talvez a melhor escolha, mantendo esta peça no tabuleiro. A alternativa é 27.Be5 sinalada por diversos mestres.

27...Bb4 

"Eu sei que o computador sugere este lance, porém eu não podia acreditar que ele apareceria no tabuleiro. O xadrez foi cambiando..." (Nigel Short) 

28.Ta1 Ba5? 

Com poucos minutos no relógio, Carlsen comete este erro, após o qual a sua posição fica sem defesa. No seu lugar, as pretas resistem com lances como 28...h6 ou 28...g4, porém a vantagem branca não admite dúvidas, desde que o peão em c7 é muito mais perigoso que o livre das pretas em a3. A manobra Da6-c4 consolida a posição e permite lutar pela vitória. Um exemplo concreto é 28...g4!? 29.Da6 Ta5 30.Dc4 Be7 31.Tb6 Rg7 32.Tb8±

29.Da6+- 


"Depois deste lance penso que as pretas colapsam rapidamente" (Anand) 

29...Bxc7 30.Dc4! e5 31.Bxe5 Txe5 32.dxe5 De7 33.e6 Rf8 34.Tc1 

A partida é uma impressiva mostra da profundidade da preparação do grande mestre Anand 1–0

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Carlsen tem a vantagem no início, no placar e no campo psicológico


Disputadas duas partidas, o balanço do match pelo título mundial entre Magnus Carlsen e Viswanathan Anand favorece ao campeão, não somente pelo resultado mas sim porque o desenvolvimento dos acontecimentos lhe favoreceu. O norueguês mostrou boa técnica para equilibrar de pretas na primeira partida -e ganhar a vantagem logo- e para construir desde o equilíbrio da segunda uma posição de ataque que derivou em um final melhor. O desafiante, entretanto, precisa voltar rapidamente ao seu melhor nível, para se recuperar da derrota em uma instância tão prematura do match. A maior diferencia entre ambos os mestres, pelo visto nestes dois jogos, consiste em que Carlsen tem colocado suas peças com acerto, enquanto as decisões de Anand foram duvidosas e restaram harmonia a sua posição, o que finalmente teve um alto custo.
Amanha, desde as 10.00 hs (horário de Brasil) se realiza a terceira partida, com o mestre indiano levando as brancas. Se espera uma luta desde a abertura de peão dama, onde o campeão teve alguns problemas na hora de enfrentar certos esquemas agudos. Porém neste nível, com um arco de aberturas extenso, tudo pode acontecer.