sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ataque e defesa: um teste (II)

Dias trás, apresentamos a seguinte posição:


JOGAM AS PRETAS
a) Responda que você acha: o ataque branco concede a esse lado a vantagem ou, pelo contrário, a defesa preta prevalece?
b) Indique uma possível continuação

Os comentários da partida Igonin - Khalifman, Minsk (memorial Bronstein) 2014, dão a solução a esses interrogantes:
Por começar, as pretas contam com uma clara vantagem, porém elas devem ainda sortear algumas questões práticas.

25... Df7? 

Khalifman erra na defesa! Aqui era necessária 25...g5! onde 26.f4 (26.Txg5+ hxg5 27.Dxg5+ Rf7 28.Bg6+ Rf8 29.Bxe8 e5 30.Th4 Rxe8–+) 26...g4 27.h3 Tad8 é claramente melhor para as pretas, por exemplo 28.hxg4 Ce4 29.Dxe7+ Txe7 30.Txd8 Cxg3 com clara vantagem

26.Bxg6+- Dxg6 27.Txg6+ Rxg6 


De repente, a posição do ex-campeão mundial é delicada. O material compensa adequadamente a dama, porém o rei preto está muito exposto 

28.Dg3+ Rf7 29.Tf4? 

Uma desafortunada interpretação da ideia correta -explorar a instável colocação do cavalo preto- 29.De5! com a ideia Tf4 teria produzido uma das maiores zebras do ano! As brancas têm aqui vantagem decisiva, por exemplo na linha 29...Cd5 (29...Be4 30.f3 Bc2 31.Tf4 Bf5 32.g4 Cd5 33.Txf5+ exf5 34.Dxd5+ Rg7 35.Dd7+ Rh8 36.Dxf5+-; 29...Tg8? 30.Dc7+; 29...Rg6 30.h4+-) 30.b3 (30.Dh5+!?) 30...Tac8 31.c4 bxc4 32.bxc4 Tg8 33.f3+-

29...Tg8!

Novamente as pretas têm vantagem clara

30.De3 Bxg2 


Os papeis se inverteram e agora são as pretas as que dispõem de ataque e, muito importante, o rei branco está tão exposto quanto seu colega 

31.De5 

Ainda tentando atacar 31.h4 parece melhor chance prática -um ar adicional ao rei neste tipo de casos é geralmente uma boa ideia-

31...Bh3+ 32.Rh1 Bf5 33.Dc7+ Rg6 34.Td4 

34.De5 Tad8 com clara vantagem preta 

34...Tg7–+ 35.Dc6 Tag8 36.f3 

36.Rg2 e5 37.Th4 Aqui ganham vários lances, entre eles o original 37...Rg5–+

36...Rh7 37.Td1 Bh3 


As brancas perdem mais material 0–1

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Continental de Pipa: os grandes mestres participantes



Em poucos dias mais começa o principal torneio do ano no Brasil, o Campeonato Continental das Américas (Pipa, RN, entre os dias 18 e 26 de outubro), classificando aos primeiros participantes à seguinte Copa do Mundo.
Muitas das principais estrelas do xadrez americano e brasileiro vão participar, com destaque para os grandes mestres Lázaro Bruzon (Cuba), Julio Granda Zuñiga (Peru, na foto), Axel Bachmann (Paraguai), o atual campeão nacional Rafael Leitão (Brasil), Samuel Shankland (USA, de grande atuação nas recentes olimpíadas realizadas em Tromso), Ruben Felgaer (Argentina), Gregory Kaidanov (USA), Krikor Mekhitarian (Brasil), Gilberto Hernandez (México), Felipe El Debs (Brasil) e Alexander Shabalov (USA), ademais de um nutrido grupo de mestres internacionais encabeçado por Bernal Gonzalez Acosta (Costa Rica) e os brasileiros Evandro Barbosa e Roberto Molina.
Uma grande delegação carioca participa: é o estado que mais enxadristas está aportando -ao fechamento deste artigo- ao torneio.

sábado, 4 de outubro de 2014

Ataque e defesa: um teste

Avalie cuidadosamente a seguinte posição, tomada de uma partida disputada no presente ano:


JOGAM AS PRETAS
a) Responda que você acha: o ataque branco concede a esse lado a vantagem ou, pelo contrário, a defesa preta prevalece?
b) Indique uma possível continuação

A solução, proximamente...

Aberto de Brasil em Juiz de Fora: vitória de Di Berardino


A cidade mineira foi sede de uma nova edição do Aberto do Brasil entre os dias 26 e 28 de setembro, contando com noventa e cinco participantes. A prova foi realizada nas amplas instalações do Premier Parc Hotel pelo sistema suíço em seis rodadas, sendo o vencedor o mestre internacional Diego di Berardino com 5½ pontos, com meio a mais que outros cinco participantes: os mestres internacionais Wellington Rocha e Luis Rodi, os mestres fide Luis Alexandre Gomes e Frederico Gazel, e o candidato a mestre Jorge Wilson Rocha, de Espírito Santo. A equipe de arbitragem foi comandada pelo internacional Elcio Mourão. Na oportunidade, a sala de jogo e a cidade foi visitada por uma equipe de inspeção da FIDE encabeçada pelo presidente de FIDE Americas, Jorge Vega, e o presidente da CBX, grande mestre Darcy Lima. O motivo: a fins de novembro a cidade vai ser sede do Mundial Escolar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Rio de Janeiro: o sucesso do ITT FEXERJ


A cidade maravilhosa voltou a ser sede de um torneio fechado de nível, o ITT FEXERJ, realizado entre os dias 13 e 21 de setembro com a organização de dita entidade, a Federação de Xadrez do estado de Rio de Janeiro, à qual o seu atual presidente, mestre fide Alberto Mascarenhas, está devolvendo aos primeiros planos do xadrez nacional depois de um período obscuro. 
A realização desta prova, que entrega a possibilidade de obter normas de títulos internacionais aos participantes, é um novo logro no andamento da federação estadual, que vem a coroar um esforço sustenido que envolve diversas atividades em todas as categorias e da o traço final para completar um círculo virtuoso que abarca desde as categorias inicias até as de nível de mestre.
De outra forma, o crescimento dos enxadristas de Rio simplesmente pararia com a participação no estadual. A chance de enfrentar enxadristas consagrados, inclusive alguns estrangeiros, é motivo de superação para os possíveis participantes, que podem também lutar pela obtenção de uma norma. Rio de Janeiro estava precisando de um torneio como este –o último realizado destas características foi em 2011-, e ainda precisa de planos futuros com torneios desta força. A elevação do nível dos enxadristas do estado vai ser o resultado de uma política séria de inclusão de provas de alto nível no calendário. A FEXERJ parece estar dando o primeiro passo nessa direção.
A sala de jogo da Associação Leopoldinense de Xadrez (ALEX), situada no centro carioca, foi o cenário do torneio; por lá passaram também muitos enxadristas conhecidos que somaram com a sua presencia para o sucesso da prova. Dirigida pelo próprio Alberto Mascarenhas, e com a arbitragem do AF Marcelo Einhorn e o NA Rafael Rafic, a justa se desenvolveu sem incidentes além dos puramente esportivos: todas as partidas foram lutadas até o último peão, e alguma falta de técnica (ou de boa forma) se viu compensada por muito esforço e predisposição ao jogo.
Uma das grandes atrações do torneio foi a presencia de mestres da velha geração carioca, como Eduardo Limp, Sadi Dumont –no seu regresso ao tabuleiro- e Ricardo Teixeira, aos que se somaram expoentes da seguinte geração como Wagner Guimarães, o alemão Georg Von Bülow –esteve perto de realizar a norma de mestre internacional- e quem escreve estas linhas –os dois últimos moramos em Rio, em fim-.
O vencedor do torneio, entretanto, foi o mestre internacional argentino German dela Morte, com os mesmos pontos que Limp, porém melhor sistema desempate. Ambos os mestres brigaram pela liderança desde o começo da prova, exibindo diferentes armas porém com a mesma efetividade: o brasileiro com seu jogo posicional e técnica de finais; o argentino com o seu cálculo preciso e uma muito boa preparação teórica. Os 7½ pontos que obtiveram fala per se do excelente torneio que eles fizeram.
É uma pena que Georg von Bülow não tenha feito a norma. Por um lado, ela estava alta demais: 7 pontos não é uma coisa fácil de obter em um torneio destas características. Porém Georg esteve a apenas um empate de obtê-la, na sua partida pela penúltima rodada contra o vencedor do torneio. OK, ainda assim ele devia ganhar a última rodada, porém a motivação enorme de obter uma norma teria feito o trabalho.
No que a minha atuação se refere, a deixo no deve. Muitos empates, alguns com elementos interessantes como os das partidas com Manzi e Limp, outros esquecíveis. Uma derrota desnecessária por jogar com muita ambição uma posição que requeria cautela, três vitórias –uma muito duvidosa; duas merecidas, sendo interessante a da partida com Wagner Guimarães onde pude vencer em um final de torre e cavalo por lado (com peão a mais) de livro-.
Na seguinte faixa de colocações na prova, Sadi Dumont, Ricardo Teixeira e Wagner Guimarães alternaram boas e não tão boas no torneio. Enquanto Sadi e Wagner foram de mais a menos –o cansaço foi minando as suas possibilidades-, Ricardo se recuperou de um má começo e levanto posições no final da prova.
Os restantes participantes –Renato Nunes, o italiano Raimondo Bottari (outro estrangeiro radicado em Rio) e Luis Manzi- acompanharam sem desentoar.

Luis Rodi Maletich

Posições:
1-2. G. Della Morte, E. Limp 7½; 3. G. von Bülow 6; 4. L. Rodi 5½; 5-6. S. Dumont, R. Teixeira 4; 7-8. W. Guimarães, R. Nunes 3; 9. R. Bottari 2½; 10. L. Manzi 2

domingo, 21 de setembro de 2014

Trocar ou não (II)

Dias trás, apresentamos o seguinte exercício:
A seguinte posição se registrou na partida entre Arkadij Naiditsch e Dennis Wagner, no torneio de Baden Baden 2014.


As pretas, que estão defendendo o típico final berlinense da Ruy Lopez, devem determinar se se dirigem ao final de peças menores com 34...Th1 ou mantem as torres no tabuleiro.

A solução:

34...Th1?! 

O problema com este lance é que as pretas vão ter que entregar um dos seus bispos logo. Melhor é 34...Bb7 35.f5 com iniciativa branca porém posição defensável para as pretas

35.Txh1 Bxh1 36.Cg2! 


Provavelmente as pretas perderam este lance. Agora a perda do par de bispos é inevitável, e no final que segue a melhor estrutura branca passa a ser o fator determinante -outro detalhe é que o bispo de casas negras das pretas não tem muita mobilidade- 

36...c6 37.Rg1 Bxg2 38.Rxg2 g5!? 

38...g6 39.Rf3 Rd7 40.Re4 Be7 é outra possibilidade de defesa, mas as brancas podem continuar com a exploração da maioria de peões: 41.f5±

39.Rf3!? 


Ou a simples 39.f5 que leva à partida no caso de 39...Rd7 40.Rf3

39...Rd7 

Obviamente há que calcular a alternativa 39...gxf4 dividindo a estrutura branca em dois -a cambio esse lado obtém uma passagem boa para o rei- 40.Rxf4 Re7 41.Rf5 Rd7 42.g5 com posição estrategicamente ganha. Uma ideia é e6+ e se as pretas capturam, Rg6-h7,g6

40.f5 

Agora este lance é preciso. Não serve 40.Re4? por 40...gxf4 41.Rxf4 Re6=

40...Re7 41.Re4 Bc7


42.Be1!± 

Dirigindo esforços contra o peão g5, que ficou separado da sua base. O ataque a esse peão vai provocar a defesa...f6, criando assim as brancas um peão livre 

42...Bd8 43.Bd2 f6 44.exf6+ Rxf6 45.Bc3+ Rf7 46.Be5 

Com a ideia Bb8, Re5 

46...a6  


47.f6!? 

Outra forma de concretizar a vantagem é 47.Bd6


As pretas estão em zugzwang: 47...Bf6 (47...Rf6 48.Bb8 Rf7 49.Re5 Re7 50.a4 a5 51.f6+ Rf7 52.Rd6 Rxf6 53.Rd7 Be7 54.Bd6 Bxd6 55.Rxd6+-) 48.Bc7 b5 49.cxb5 axb5 50.Bd6 Be7 51.Bxe7 Rxe7 52.a4 c4 53.a5 cxb3 54.Rd3+-

47...Re6 

47...Bxf6 48.Rf5 Bd8 49.Bb2 b5 50.Bc1 Bf6 51.Bxg5 Bd4 52.Bh6 Bc3 53.g5+-


48.f7 Be7 

Ou 48...Rxf7 49.Rf5 seguido de Bb2-c1 como no exemplo do comentário prévio

49.Bc7 Rxf7 

49...b5 50.Bd8 Bf8 51.Bxg5 Rxf7 52.Rf5+-

50.Rf5 b5 51.Be5 b4 52.Bb2! 


Com a já conhecida ideia Bc1–xg5. O avanço posterior do peão g distrai ao rei preto e o das brancas pode se transladar á ala de dama para capturar os peões pretos no setor 

52...Bd8 53.Bc1 Bf6 54.Bxg5 Bd4 55.Bd8 Bc3 56.g5 Bd4 57.Bf6 Bc3 58.g6+ Rg8 59.Be5 Bd4 60.Re6 1–0

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Trocar ou não?

A seguinte posição se registrou na partida entre Arkadij Naiditsch e Dennis Wagner, no torneio de Baden Baden 2014.


As pretas, que estão defendendo o típico final berlinense da Ruy Lopez, devem determinar se se dirigem ao final de peças menores com 34...Th1 ou mantem as torres no tabuleiro.
O leitor pode elaborar a sua resposta de forma que a posição presente sirva como útil exercício de avaliação e cálculo.
Na sexta 19 vamos responder a questão desde este espaço, comentando a continuação da partida.