sábado, 6 de setembro de 2014

Lourival Pontes de Oliveira Neto


É com pesar que recebemos a notícia do falecimento do enxadrista Lourival Pontes de Oliveira Neto, 52 anos, ocorrido o passado dia 4 de setembro em Belém, logo após cirurgia a que foi submetido. 
Em comunicado oficial, a CBX e FEXPA apresentaram condolências à família, ficando de luto com a noticia.
Lourival era um frequente animador das atividades enxadrísticas do estado de Pará, participando com proverbial bom humor das conversas e sucessos do dia a dia com os colegas enxadristas.
Tinha uma empresa de brinquedos, atividade na qual também ganhou o respeito e amizade da população da capital estadual.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Um final com destino de livro


Aronian,Levon (2805)
Carlsen,Magnus (2877) 
Saint Louis USA (5), 31.08.2014

A partida entre os primeiros do mundo (de acordo ao rating elo) se desenvolveu de forma original na abertura, porém o nosso foco de hoje é o final com destino de livro que os protagonistas nos entregaram 

1.d4 Cf6 2.Cf3 b6 3.g3 Bb7 4.c4 g6 5.Bg2 Bg7 6.0–0 0–0 7.Te1 e6 8.Cc3 Ce4 9.Cxe4 Bxe4 10.Bg5 De8 11.Dd2 d6 12.Bh6 Cd7 13.Tac1 De7 14.Bxg7 Rxg7 15.Bh3 Cf6 16.Ch4 Bb7 17.f3 c5 18.e4 cxd4 19.Dxd4 Tfd8 20.Cg2 Dc7 21.Ce3 Dc5 22.Dc3 a5 23.Ted1 h5 24.Td3 b5 25.b3 bxc4 26.bxc4 Bc6 27.Tcd1 Td7 28.Bg2 Tb8 29.Dd4 De5 30.f4 Dxd4 31.Txd4 Tc7 32.T1d2 Ce8 33.Rf2 Rf8 34.c5 dxc5 35.Tc4 Bb5 36.Tc3 c4 37.e5 Tc5 38.Cc2 Cc7 39.Cd4 Cd5 40.Bxd5 Txd5 41.Cf3 Tc5 42.Tb2 Td8 43.Cd2 Bc6 44.Cb3 Tb8 45.Tcc2 c3 46.Tb1 Tcb5 47.Txc3 Bd5 48.Tbc1 Bxb3 49.Txb3 Txb3 50.axb3 Txb3


A teoria estabeleceu tempo trás que neste tipo de finais as chances de empate do lado que defende são boas, mas também que a técnica requerida é alta. Geralmente o defensor leva sua torre por trás do peão livre, de forma de obrigar à torre atacante a contar com menos espaço, ao tempo que o contrajogo para o caso do rei atacante avançar para apoiar o peão livre consiste em capturar algum dos peões adversários para tentar criar peões livres próprios 

51.Tc8+ Re7 

O destino lógico para o rei, considerando o exposto: aqui essa peça está mais perto da ala de dama, onde o peão livre preto reside 

52.Rg2 a4 53.Rh3 g5! 


Um excelente lance prático, com os seguintes objetivos: a) simplificar o material o mais possível na ala de rei, de modo de dificultar a possibilidade de enfrentar peões passados perigosos no setor; b) quebrar a harmonia na formação de peões branca, a dividindo em dois blocos em caso das brancas capturar em g5; c) na hipóteses prévia, o peão e5 fica fraco, e a sua queda resulta em um novo peão livre para o segundo lado (o peão e); d) a quarta fileira fica aberta para o trabalho da torre atacante  

54.fxg5 Tb4 

Por regra geral, a torre defende o peão livre de forma mais efetiva pelos laterais, de forma de se manter ativa. Claro que nem sempre se pode escolher, mas aqui é um desses casos onde a torre pode escolher entre se colocar em a3 ou b4 

55.Ta8 Tg4 56.Ta7+ 

Nos seus comentários em chessbase.com, o grande mestre Varuzhan Akobian recomenda a alternativa 56.Ta6 com a continuação 56...Txg5 57.Txa4 Txe5 58.Rh4 indicando que as brancas têm chances de empate. É certo, porém as pretas também contam com  chances de vitória considerando o seu peão livre no centro. Talvez 50%-50% na prática e com o relógio correndo...

56...Rf8 57.g6!? 

57.Rg2 Txg5 58.Txa4 Txe5 é outra forma de chegar a uma posição semelhante à do comentário prévio

57...fxg6 58.Rg2 g5 59.Rf3 Tb4! 

A melhor colocação pára a torre 

60.Re3 Re8 61.Rd3 h4! 


A criação de novas fraquezas é um dos objetivos estratégicos do lado atacante neste tipo de finais 

62.Rc3!? 

Um lance natural, tentando ganhar tempo ameaçando a torre, mas depois do seguinte lance as brancas devem de qualquer jeito se dirigir à segunda fileira com o rei. Aronian podia ter feito isso de forma imediata: 62.Rc2! onde 62...hxg3 63.hxg3 Tg4 se responde com 64.Rd2 (na partida, as brancas tiveram oportunidade de chegar nesta posição) 64...Txg3 65.Txa4 Rf7 (com a ideia ...Rg6-f5) 66.Ta6! Tb3 67.Re2 Tb5 


Akobian indica que as pretas ganham aqui, porém depois de 68.Rf3 Txe5 69.Ta8! as pretas não progridem, por exemplo 69...Td5 70.Rg4 Rf6 71.Tf8+ Rg6 72.Tg8+ Rf7 73.Ta8=

62...hxg3 63.hxg3 

Obviamente não 63.Rxb4? g2–+

63...Tg4 64.Rd3? 

Com este lance descuidado Aronian perde a sua última chance prática de empate mediante 64.Rd2! com transposição à linha 62.Rc2 (ver acima)

64...a3!–+ 


A presencia do rei branco na terceira fileira se revela desafortunada, pois permite às pretas conservar o peão afastado e com isso obter uma posição de técnica simples 

65.Re3 Txg3+ 66.Rd4 

66.Rf2 não é melhor 66...Th3 67.Rg2 Tb3–+ e as pretas ganham levando seu rei a b8


66...g4 

A posição da foto acima!

67.Ta8+ Rd7 68.Rc5 Td3 69.Rc4 Tf3 70.Rc5 g3 0–1

Caruana, fabuloso em Saint Louis


Cinco vitórias em cinco jogos. Um começo tão bom não se registrava desde Wijk ann Zee 2010, quando Alexey Shirov começou a prova com igual número de vitórias (certo, com uma oposição não tão forte). O grande mestre italiano Fabiano Caruana (foto) na verdade está fazendo lembrar ao ex-campeão mundial Robert Fischer com tantas vitórias sobre adversários de primeiro nível. Acabada a primeira volta do torneio Sinquefield em Saint Louis, USA, exibe uma performance de 3601 (!) que em variação de elo significa um ascenso de 25 unidades.
Caruana venceu nas suas partidas do primeiro turno a todos os adversários: Topalov, Vachier-Lagrave, Carlsen, Aronian e Nakamura. A pergunta agora é até onde se estende a série positiva.

domingo, 31 de agosto de 2014

Grande vitória de Fier em Barcelona


Em grande atuação, o grande mestre brasileiro Alexandr Fier (f0to) venceu nessa cidade espanhola o tradicional open de Sants, com 8½ pontos sobre 10. Fier continua assim a tendência positiva evidenciada já na passada olimpíada de Tromso, quando realizou uma boa atuação. Foi a 16a edição desse aberto, que nesta oportunidade contou com 351 participantes

Principais posições
1. A. Fier 8½; 2-6. M. Kraemer, D. Alsina Leal, S. Bogner, D. Vocaturo, S. Bromberger 8; 7-18. C. Sandipan, Q. Ducarmon, L. Perpinya, E. Blomqvist, L. Aroshidze, P. Lyrberg, H. Oliva, F. Libiszewski, J. Granda Zuñiga, S. Collins, C. Cruz 7½; etc.

Fier,A (2570) - Schroeder,J (2367) 
Barcelona ESP (9.2), 30.08.2014
1.d4 d5 2.c4 e6 3.Cc3 Be7 4.cxd5 exd5 5.Bf4 c6 6.e3 Bd6 7.Bxd6 Dxd6 8.Bd3 Cf6 9.h3 b6 10.Cf3 Ba6 11.Bxa6 Cxa6 12.Da4 Cb8 13.0–0 0–0 14.b4 Cbd7 15.b5 Tfc8 16.Tac1 c5 17.dxc5 Cxc5 18.Db4 Cce4 19.Db2 Tc4 20.Cxe4 Cxe4 21.Tfd1 Dc5 22.Txc4 dxc4 23.Dd4 Dxd4 24.Txd4 Cc3 25.Txc4 Cxb5 26.Tc6 Td8 27.a4 Cd6 28.Cd4 Rf8 29.Tc7 a5 30.Tc6 Cc8 31.Rf1 h5 32.Re2 Re8 33.Cb5 Re7 34.Tc7+ Rf6 35.Cd4 g6 


36.f4 Te8 37.Rd3 Rg7 38.e4 Cd6 39.e5 Cf5 40.Cxf5+ gxf5 41.Rc4 Te6 42.Rb5 Tg6 43.Tc2 h4 44.Ra6 Te6 45.Td2 Tc6 46.Rb5 Tg6 47.Tb2 Te6 48.Tc2 Tg6 49.Te2 Te6 50.Tb2 Th6 51.Ra6 Tg6 52.e6 Txe6 53.Txb6 Te4 54.Rxa5 Txf4 55.Tb2 Te4 56.Rb5 Te5+ 57.Rc6 Te6+ 58.Rd5 Rf6 59.Ta2 f4 60.a5 1–0

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Carlsen pode seguir os passos de Fischer


A FIDE estabeleceu como data limite a do próximo dia 31 de agosto para que o contrato relativo ao match pelo campeonato mundial entre Magnus Carlsen e Viswanathan Anand seja assinado. O problema é que o atual titular, que solicitou e não obteve um adiamento do início do duelo, ainda não assinou, e não há certeza de quais vão ser seus passos.
O match está estabelecido para se disputar no mês de novembro, na cidade russa de Sochi. Anand já assinou o contrato, porém Carlsen pode seguir os passos do genial e polêmico Bobby Fischer e ser o segundo campeão mundial que perde o título sem jogar.
Ontem foi consultado pelos jornalistas acerca da assinatura do contrato, se registrando o seguinte diálogo:
- Vai assinar o contrato amanha?
- Vamos falar disso depois...
- Quando?
- Preferivelmente depois do torneio (a taça Sinquefield, que finaliza o dia 7 de setembro).
Enquanto o manager de Carlsen, Espen Agdestein, solicitou a FIDE um prazo para a resposta até justamente o dia 7, quando finaliza o torneio de Saint Louis onde participa o campeão, a FIDE ainda confirma que respeitará a data limite e inclusive já tem previsto um participante para o duelo no caso de Carlsen não assinar o contrato: Sergey Karjakin, por ter finalizado segundo no torneio Candidatura.
As declarações de Carlsen e seus colaboradores não permitem entrever alguma informação acerca da decisão que finalmente vai tomar o norueguense, porém o tono delas certamente não parece alentador. 
Ante este quadro, o presidente da Associação de profissionais de xadrez (ACP), Emil Sutovsky, escreveu uma carta aberta ao presidente da FIDE, Kirsan Ilyumzhinov, manifestando a sua preocupação: "Solicito que faça tudo o possível em ordem de resolver este desentendimento e não deixar que o mundo do xadrez se divida, como o esteve no passado recente". Certamente, se espera uma atitude responsável da FIDE, porém também de Carlsen e até de outros atores como Garri Kasparov, recente desafiante de Ilyumzhinov na presidência da entidade mundial, e que poderia emitir uma mensagem de conciliação no caso de desejar colaborar com sinceridade na solução do impasse.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Caruana começa ganhando em supertorneio de Saint Louis

Depois do balde de água gelada para aderir à campanha para angariar fundos para combater a doença esclerose múltipla, Fabiano Caruana começou a prova ganhando um jogo importante ante Topalov
A Segunda edição da Taça Sinquefield tem lugar nessa cidade, com participação de seis consagrados mestres, todos entre os dez primeiros do ranking mundial, incluindo ao campeão mundial Magnus Carlsen e ao número 2 Levon Aronian. A prova se estende até o próximo dia 7 de setembro, se realizando pelo sistema round robin a dupla volta. Alcança a categoria XXIII da FIDE (2802 de elo médio), o que transforma a competição em uma das mais fortes de todos os tempos.
Já na primeira rodada o italiano Fabiano Caruana pega a liderança após vencer, levando as peças pretas, ao ex-campeão mundial Veselin Topalov. Dois interessantes empates -uma luta posicional entre Levon Aronian e Hikaru Nakamura e um complexo cenário com tática envolvida entre Maxime Vachier-Lagrave e Magnus Carlsen- completaram a jornada.

sábado, 16 de agosto de 2014

Balanço geral da Olimpíada


China obteve uma vitória histórica nesta 41a olimpíada de xadrez celebrada na cidade norueguesa de Tromso. É um logro inédito, considerando que nos fins dos anos sessenta o xadrez estava proibido nesse país (o governo de Mao-tse-tung o considerava demasiado ocidental). A metade da década seguinte China se afiliou á FIDE e lançou um ambicioso projeto denominado Grande Dragão que levou ao país a um notável crescimento, primeiro evidenciado na categoria feminina (com campeãs mundiais desde os anos noventa) e agora também no absoluto, com esta conquista olímpica.
Com dois grandes mestres com mais de 2700 elo (Wang Yue e Ding Liren), dois com mais de 2650 (Yu Yangyi e Ni Hua) e a jovem estrela Wei Yi, o time chinês venceu em oito encontros e empatou três, perdendo somente uma partida em todo o percorrido pela prova (Peter Leko derrotou a Wang Yue no primeiro tabuleiro do match que os chineses ganharam de Hungria pela mínima diferencia). Momentos decisivos: a vitória na rodada 8 frente ao então líder da prova, Azerbaidjão, e a vitória pela mínima diferencia ante França na penúltima rodada, quando os galos tinham alcançado na liderança aos chineses.
China soube pegar no momento certo e ganhar os duelos que tinha que ganhar. Foi a equipe mais regular, e obteve o ouro de forma merecida.
A prata foi para Hungria, que misturou no time enxadristas de grande experiência  -como Peter Leko, Zoltan Almasi ou Judit Polgar, que anunciou o seu retiro do xadrez competitivo- com as novas estrelas como Richard Rapport ou Csaba Balogh. Para o xadrez húngaro -que tinha vencido a olimpíada de Buenos Aires 1978- um resultado importante.
Assim como a China, outro gigante asiático mostrou sua força em Tromso: me referro ao time da Índia, que com uma formação jovem e sem Anand pode obter a prata.
Relegado ao quarto lugar ficou o primeiro pré-classificado da prova, Rússia. Alguns cronistas consideraram um fracasso esta atuação -e sem dúvidas uma nova frustração depois de varias olimpíadas sem acessar o ouro-, mas também pode ser visto como uma prova do parelho que está o xadrez no nível magistral, com figuras aparecendo aqui é lá. Também se esperava mais de Ucrânia e fundamentalmente de Armênia, que defendia o ouro logrado em Istambul 2012. Outro time que ficou em dívida, por ser local e porque a sua pre-classificação era melhor, foi Noruega. Nem sequer a presencia do campeão mundial Magnus Carlsen ajudou aos nórdicos a aparecer entre os primeiros lugares; o prodígio decidiu esconder a preparação do olhar curioso de seu desafiante Anand e empregou linhas de segunda ordem, coletando duas derrotas, ante Naiditsch e Saric. Carlsen segue em dívida no que faz a atuações olímpicas, porém há que entender que dada a pré-classificação de Noruega, os adversários nem sempre são fonte de motivação -e também, não existe material preparado sobre eles como sem dúvida a equipe do campeão deve ter dos seus principais adversários-.
No que faz ao xadrez latino-americano, era previsível dado o desenvolvimento da prova que Cuba e Estados Unidos obtenham bons resultados -o sétimo lugar dos caribenhos merece destaque-, porém também tiveram boas atuações os times de Argentina e Perú (que finalizaram com os mesmos pontos que Brasil).
Dentro do mundo lusofalante, Brasil é o cômodo líder, mas também há que destacar a boa atuação de Portugal, que finalizou na 58a posição após ser o pré-classificado 75. Angola ficou na colocação 103, perto da sua pré-classificação, Moçambique no 126o lugar, algo menos do esperado.
Do torneio em se, pode-se indicar que este bem organizado, com uma sala de jogo ampla e uma cobertura no site oficial ótima (a melhor dos últimos tempos). 
O ponto lamentável foi a morte de dois enxadristas, um deles na sala de jogo e durante a sua partida: Kurt Meier, de Seychelles, na última rodada, devido a um ataque cardíaco. Horas depois, apareceu morto na sua habitação de hotel o representante do time ICCD (organização que agrupa aos deficientes auditivos), o uzbeco Alisher Anarkulov.
A Olimpíada também vai ser lembrada por ter acontecido em forma simultânea ao congresso da FIDE onde Kirsan Ilyumzhinov reteve a presidência da entidade ao derrotar em forma ampla ao seu adversário Garri Kasparov.
A maior polêmica foi a que envolveu, antes do inicio da prova, à equipe feminina russa, que foi eliminada pela organização por não apresentar o listado em tempo -Rússia tomou os dias esperando uma definição na transferência de Kateryna Lagno, ex representante de Ucrânia-. O presidente Ilyumzhinov defendeu a posição russa, e depois de dias de tensão os organizadores voltaram trás a decisão, permitindo a participação do time que finalmente conquistara o ouro.


Rússia venceu a prova feminina de forma merecida, derrotando no match decisivo a China com vitória de Lagno sobre a campeã mundial Hou Yifan -com esto, penso, Kateryna começa a pagar os 20.000 euros que Rússia teve que pagar como compensação-. A queda na penúltima rodada contra Ucrânia não foi aproveitada pela China, que finalizou na segunda colocação, compartilhada com Ucrânia.
Pelo geral, a prova feminina não apresenta as surpresas que acontecem no torneio absoluto, e as favoritas se distanciam muito do resto dos países competidores. As primeiras equipes pré-classificadas ocupam os primeiros lugares, pelo qual se pode destacar a atuação do time de Cazaquistão, que finalizou na sexta colocação quando estava pré-classificado 17, com os mesmos pontos que Geórgia -uma potencia do xadrez feminino que acabou na quarta colocação-.