sexta-feira, 7 de junho de 2013

Vitória: xadrez sem límites

Crônica do Aberto do Brasil em Vitória
Pelo MI Luis Rodi

A capital espírito-santense voltou albergar um Aberto de Brasil, e como acontecera nas edições prévias, a organização foi destaque: todo bem feito, hotel de primeiro nível (o Quality Aeroporto, que também sediava a prova) em um lugar perto da praia, sala de jogo bem iluminada –com tabuleiro, jogos de peças e relógios digitais para todas as mesas-, horários de jogo excelentes: as rodadas duplas foram as 14.00 e 19.30 hs. e a última rodada às 13.00 hs.; e importante preservar um tempo de descanso entre as rodadas de um dia e outro; as vezes os organizadores colocam uma rodada à noite e a seguinte... a manhã cedo, no que envolve um planejamento ruim –não se pode fazer um bom xadrez dormindo quatro ou cinco horas somente-. Esse aspecto já foi importante, sendo mais um acerto da FESX comandada por Jonair Pontes que ajudou á configuração de uma prova modelo desde o ponto de vista organizativo. Também destaque para o quadro arbitral, com o AI Pablyto Robert como principal, bem secundado por Cassius Alexandre da Silva, o próprio Jonair Pontes e Lindomar Tonini.
O gm Everaldo Matsuura levando as peças pretas no jogo contra Mateus Nakajo
O vencedor foi o grande mestre Everaldo Matsuura, que começou com notáveis 5 em 5 para depois administrar dois empates, com o MI local Bittencourt e quem isto escreve. A sua vitória foi muito merecida e teve pontos altos nos pontos que obteve contra fortes enxadristas que acabaram nas primeiras posições, como Mateus Nakajo Mendonça e Wellington Rocha. Com a sua característica modéstia, Everaldo vai dizer que em algumas posições teve sorte... mas quem não tem sorte no xadrez? E o fato de ter sempre as peças posicionadas da forma adequada, o rei sempre protegido e os peões uniformemente formados é um raro talento que não tem muito a ver com a sorte. Parabens grande mestre Matsuura por mais um merecido sucesso!

O MN  bahiano Adriano Barata no seu jogo contra o MI capixaba Bittencourt
Como acontece neste tipo de competências realizadas pelo sistema suíço, acasos e azares e até a sorte no emparceiramento determinam as vezes as posições finais (um fato que pode ser observado no sistema de desempate Bucholz, que indica a força dos adversários que teve que enfrentar cada jogador). Apesar disso, eu quisera mencionar os que para mim foram os destaques da prova, começando pelo baiano Adriano Albiani Barata, que com 2147 pontos elo se manteve nas primeiras mesas, obteve uma vitória contra o MI Bittencourt e finalizou na sexta colocação, compartilhando a quarta colocação. O caso de Adriano é representativo do ser humano vencendo as dificuldades que a vida as vezes coloca: a causa de um acidente enquanto praticava natação, o enxadrista baiano foi confinado a se locomover em uma cadeira de rodas, e para anotar os jogos ele ata a caneta ao seu braço, fazendo todo o processo de realizar o lance em forma muito devagar –os apuros de tempo, claro, são um pesadelo para ele-. Triunfando sobre essas adversidades, Adriano desenvolveu um bom xadrez em Vitória e seu sexto lugar -com cinco pontos sobre sete- é um mais que merecido premio ao esforço. Bravo, mestre!
O mineiro Crisolon Vilas Boas (dir) no seu jogo pela sexta rodada
Também é um canto à vida a participação do mineiro Crisolon Vilas Boas, que enfrenta desafios não inferiores aos de Barata: ele é não vidente, e para competir com seus adversários deve manter na sua memoria as posições que vão se sucedendo na partida. Enquanto essas ações se desenvolvem no tabuleiro principal, ele dispõe de um mais pequeninho onde lhe está permitido mexer as peças para “ver” mediante o tacto onde elas estão e elaborar as estratégias da luta. Quando o adversário indica o lance por ele feito, Crisolon registra esse movimento e sua posterior resposta em um gravador que leva em cada torneio. Logicamente, os árbitros estão pendentes de forma especial do que acontece no seu tabuleiro. Outorgando o enorme handicap de não poder visualizar o tabuleiro, o mineiro ainda obteve um ponto e meio (este último meio ponto após mostrar conhecimento técnico da oposição distante no final de rei e peão contra rei). Bravo, Crisolon!
O caso destes dois apaixonados pelo jogo ciência -e de outros: Adriano não foi o único cadeirante da prova- pode ser resumido de forma notável com a frase que acompanhou o site oficial do torneio: o xadrez não tem limites!

Vão minhas últimas linhas deste artigo para a bela cidade de Vitória, que sempre nos recebe com sol, dias de praia bons, gastronomia de primeira e a amabilidade ímpar da sua gente. Com torneios assim, sempre a despedida é: até a próxima, amigos!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Fazendo fácil o difícil


A técnica dos melhores enxadristas do mundo nunca deixa de surpreender. Observe por exemplo a facilidade com a qual Sergey Karjakin (na foto, sentado esperando ao seu adversário enquanto Topalov caminha perto) ganha a seguinte posição ante um +2700, Anton Korobov:

Korobov,A - Karjakin,S
Kiev UKR (1), 05.06.2013


As pretas jogam e ganham.

75...Rg3!

Única para vencer. Se 75...Txh3 76.Ta2+ Rg3 77.Re5 Th1 78.Ta3+ Rg4 (78...Rg2 79.Rf4=) 79.Ta4+ Rg5 80.Re4=

76.Ta8 Rxh3 77.Tg8 Tf4 

77...Tg3 é também suficiente

78.Re5 


78...Ta4! 

A concretização da vantagem requer de técnica, e a de Karjakin se mostra à altura das circunstâncias. Em vez do lance do texto, teria sido desafortunada 78...Tg4? 79.Tb8 onde as pretas não têm como progredir, por exemplo 79...Ta4 80.Rf5 Rg3 81.Tb3+ Rg2 82.Tb2+=

79.Rf5 

Ou 79.Tb8 Rg3 80.Tg8+ (80.Tb3+ Rg4-+) 80...Rh2-+

79...Rh2 80.Tb8 h3! 81.Tb2+ Rg3 82.Tb3+ Rh4 


83.Tb2 Tg4 

O resto é simples 

84.Tb8 Tg5+ 85.Rf4 h2 0–1

terça-feira, 4 de junho de 2013

Dominguez campeão em Tessalônica!


O grande mestre cubano Leinier Dominguez (na foto, com o presidente da FIDE, Kirsan Ilyumzhinov) não era o favorito desta edição do Grand Prix da FIDE realizada na cidade grega de Tessalônica, onde participaram três ex campeões mundiais (Veselin Topalov, Rustam Kasimdzhanov e Ruslan Ponomariov) porém mostrando um jogo sólido e com alguma ajuda da deusa fortuna (por exemplo, no jogo que ganhou contra Ivanchuk desde uma posição absolutamente perdida) obteve mais pontos que os mestres concorrentes (a maior ameaça foi o estadunidense Gata Kamsky, que até a última rodada liderava).
Dominguez obteve assim um dos mais importantes triunfos da sua carreira, e espera que abra portas para furutas aprticipações em torneios deste nível.

Posições
1. L. Dominguez 8; 2-3. F. Caruana, G. Kamsky 7½; 4-5. R. Ponomariov, A. Grischuk 6; 6. R. Kasimdzhanov 5½; 7. H. Nakamura 5; 8-9. V. Topalov, P. Svidler 4½; 10-11. E. Bacrot, A. Morozevich 4; 12. V. Ivanchuk 3½

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Kamsky e Caruana lideram em Tessalônica


Depois da sétima rodada, dois grandes mestres se mantiveram na liderança: são eles Gata Kamsky (na foto) que derrotou ao ex campeão mundial Rustam Kasimdzhanov com uma Holandesa variante Leningrado, e Fabiano Caruana, que venceu levando as pretas ante Alexander Morozevich após um agressivo tratamento na Inglesa Simétrica. Quem até ontem compartilhava com eles a liderança, o grande mestre cubano Leinier Dominguez, teve que defender um final inferior até o empate enfrentando ao seu colega francês Etienne Bacrot. Agora Kamsky e Caruana lideram com 5 unidades, seguidos a meio ponto por Dominguez.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Três líderes em Tessalônica


Realizadas seis rodadas da edição do Grand Prix da FIDE em Tessalônica (Grécia), são três os líderes: Gata Kamsky (venceu Svidler), Leinier Dominguez (empatou um jogo no qual teve tramite favorável e chances de vitória contra Nakamura) e Fabiano Caruana (na foto; o representante italiano derrotou Bacrot após introduzir uma novidade da Escocesa). Os citados levam 4 unidades, porém quatro enxadristas mais estão a meio ponto: Veselin Topalov, Alexander Morozevich, Alexander Grischuk e Ruslan Ponomariov, que explorou a baixa forma de Ivanchuk para vence-lo em pouco mais de vinte lances. Ivanchuk, desde a derrota com Dominguez não recuperou a sua tradicional força e se posiciona como lanterna, com apenas um ponto.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Tessalônica: incrível derrota de Ivanchuk

A cidade grega, que já albergou duas olimpíadas, é sede agora de uma nova edição do Grand Prix da FIDE. São doze participantes (2753 de elo médio) encabeçados pelo ex campeão mundial Veselin Topalov, Alexander Grischuk, Hikaru Nakamura, Fabiano Caruana e Peter Svidler. Após as três primeiras rodadas, as posições são:
1-5. G. Kamsky, A. Morozevich, A. Grischuk, F. Caruana, R. Kasimdzhanov 2; 6-9. V. Topalov, R. Ponomariov, P. Svidler, L. Dominguez 1½; 10. E. Bacrot 1; 11-12. V. Ivanchuk, H. Nakamura ½
Na terceira rodada, todos os jogos acabaram na divisão do ponto, menos o seguinte, que deve server como consolo para não poucos amadores: até no nível mais alto do xadrez mundial se deixam de ganhar partidas muito ganhas!

Ivanchuk,V (2755) - Dominguez,L (2723)
Thessaloniki GRE (3.1), 24.05.2013
[MI Luis Rodi]

1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 d5 4.cxd5 Cxd5 5.e4 Cxc3 6.bxc3 Bg7 7.Bc4 c5 8.Ce2 Cc6 9.Be3 0–0 10.Tc1 Da5 11.0–0 e6 12.Db3 b6 13.Tfd1 Ba6 14.Cf4 Bxc4 15.Dxc4 Tac8 16.d5 exd5 17.Cxd5 Tfe8 18.Bf4 b5 19.Dxc5 Txe4 20.Te1 Txe1+ 21.Txe1 h6 22.h4


As brancas obtiveram uma ligeira vantagem

22...Rh8? 

Melhor é 22...Dxa2 23.Dxb5 com pequena vantagem branca

23.Bc7!+- Da6 

Ou 23...Txc7 24.Te8+ Rh7 25.Dd6+-

24.Dd6 Cb8 25.Df4 Dc6 


26.Dxf7 

26.Be5+- também ganha facilmente. A presente partida foi uma real tragedia para Ivanchuk, pois depois de um bom trabalho estratégico e obtendo vantagem decisiva estraga tudo

26...Tf8 27.De6 Rh7 

27...Dxe6 28.Txe6 Rh7 29.g4+-

28.Bd6 Td8 29.Cf6+ 

Ou também 29.Df7 Dxd6 30.Te7+-

29...Rh8 30.Ce8 Dxc3 31.Bc7 

31.Cxg7 Txd6 32.De8+ Rh7 33.Ch5+-

31...Tc8


32.Dxc8? 

32.Cxg7 Txc7 33.Ce8+-

32...Dxe1+ 33.Rh2± Be5+ 34.Bxe5+ Dxe5+ 35.g3 Rh7 36.Db7+ Rg8


37.f4? 

Um terrível erro que perde peça. As brancas ainda conservariam uma clara vantagem continuando com 37.Cc7±

37...De2+ 38.Rg1 De1+ 39.Rg2 De2+ 

Presumivelmente a repetição foi feita para sumar lances que permitam chegar ao controle de tempo antes de tomar a peça em e8 0–1

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ninguém é profeta em sua própria terra...


Magnus Carlsen (foto) vinha ganhando todo torneio que se lhe cruzava, incluindo o candidatura realizado recentemente em Londres e que o consagrara desafiante ao título mundial (o match com o campeão Anand se realiza no próximo més de novembro em Chennai, Índia). Por isso era favorito no torneio realizado em diversas cidades de seu país natal, Noruega. Apesar da força da prova -participavam verdadeiros pesos pesado como o citado Anand, Levon Aronian, Veselin Topalov, Hikaru Nakamura e Sergey Karjakin- Carlsen, pelo fato de ser local, era o favorito.


Entretanto, o vencedor foi Sergey Karjakin (foto), que teve um espetacular começo de prova (4/4) e depois administrou, se sobrepondo a uma derrota contra o próprio Carlsen. Para Karjakin é a primeira vitória isolada em dois anos, e a mais importante da sua carreira. O representante russo obteve 6/9, meio a mais que Carlsen e Nakamura, que teve um destacado final de prova.
A nota curiosa da prova foi o chinês Wang Hao, que perdeu com o último classificado -o local Jon Hammer-, porém venceu em rodadas sucessivas a Carlsen e Anand!