sexta-feira, 2 de novembro de 2012

No equador da prova

SEMIFINAL 1 DO CAMPEONATO BRASILEIRO: CRÔNICA DA RODADA 3
Pelo mestre internacional Luis Rodi

O equador do torneio: considerando que a prova, estabelecida para se disputar em oito rodadas foi finalmente reduzida a sete, estamos justamente na metade do percorrido. Já temos enxadristas que não podem perder pontos de nenhum jeito se aspiram à classificação. Os das primeiras mesas, por enquanto, ainda dispõem de alguma outra vida em caso de derrota. No tabuleiro número 1, o jogo entre Krikor Mekhitarian e Christian Toth –foto, os únicos com 100% de aproveitamento- se mostra complexo, após uma Siciliana Clássica com roques opostos onde o condutor das brancas entregou um peão na ala de rei para obter linhas abertas em compensação. Na mesa 2 (Evandro Barbosa contra Diego Di Berardino) outra Siciliana, Taimanov neste caso, com roques no mesmo setor, com uma luta mais posicional, porém não menos complexa. Eu também estou seguindo a mesa 10, onde um duelo mortal entre dois mestres –Dirceu Viana e Roberto Molina, os dois com o 50% dos pontos- tem lugar, e quem perda pode se considerar fora das vagas para a final. O jogo se desenvolve numa Caro Kann que vai ingressando ao final, mas ainda a posição é teórica.

 
Outro duelo interessante da rodada 4 é o que mantém na mesa 8 dois ex campeões brasileiros (categoria sênior), Lincoln Lucena e Marcio Baeta (foto), jogo que transita as trilhas da abertura favorita do condutor das brancas: a Inglesa.
Sendo as 21.02, a pouco mais de hora e meia do começo, uma das partidas que mencionei acaba de finalizar: Mekhitarian e Toth declararam empate. O resultado é justo: as brancas ainda têm peão a menos, mas seu rei está mais protegido e suas peças ocupam posições algo mais ativas. Com a divisão do ponto, os enxadristas que estão jogando nas mesas 2 a 4 podem alcançar aos líderes no caso de vitória. No entanto, nas mesas 2 e 3 se produzem dois rápidos empates (o do citado Barbosa – Di Berardino e o Matsuura – Menna Barreto), restando a possibilidade de alcançar aos líderes a alguma das revelações da prova, os jovens Mateus Nakajo Mendonça e Vitor Carneiro, que se enfrentam entre se na mesa 4. A propósito dos empates, esta rodada é a que mais empates ofereceu no torneio: sobre oito jogos decididos até o momento, seis acabaram de forma pacífica.

Uma hora mais tarde, são oito os jogos que ainda continuam. O Viana – Molina derivou num final de torre e cavalo por lado, onde  as pretas contam com a melhor estrutura, porém a torre ativa das brancas oferece contrajogo evidente. Logo, logo, a divisão do ponto foi o justo resultado desta partida.
O duelo de veteranos acaba com vitória de Lucena, que assim alcança três pontos, se posicionando a meio dos líderes. Para Baeta, que chegou ter apreciável vantagem nesta partida, foi um desafortunado resultado. Ao mesmo tempo as dois jovens promessas da mesa 4 acabam seu jogo: a vitória foi para Mateus Nakajo Mendonça, que se adiciona assim aos líderes da prova.
 
Mendonca,Mateus Nakajo (2211) - Carneiro,Vitor (2044)
Guarapari (4.4), 02.11.2012

1.d4 d5 2.c4 e6 3.Cc3 Be7 4.Cf3 Cf6 5.Bf4 0–0 6.e3 c5 7.Tc1 Da5
 
Uma ideia pouco usual nesta variante Blackburne do Gambito de Dama declinado; as brancas obtém uma pequena porém persistente vantagem de diversas formas, entre elas com a continuação do jogo
 
8.Bd3 cxd4 9.exd4 dxc4 10.Bxc4 b6 11.0–0 Ba6 12.Bxa6 Cxa6 13.a3 Tac8 14.De2 Cb8 15.Bxb8! Txb8 16.Ce5 Tb7 17.Cc6 Df5 18.Da6 Td7 19.Cb5 Df4 20.h3 Ce4 21.Cxe7+ Txe7 22.Cxa7
 
 
22...Cxf2?
 
A continuação natural, porém uma surpresa espera as pretas. Talvez 22...Tc7 seja a mais resistente
 
23.Tc3!±
 
23.Cc6 Cxh3+ 24.gxh3 Dg3+ com perpétuo mostra a ideia preta; 23.Tc2!? Cxh3+ 24.gxh3 Dxd4+ 25.Tcf2 com ligeira vantagem branca
 
23...Cxh3+ 24.Txh3 Dxd4+ 25.Rh1 Dxb2
 
 
Na matemática três peões equivalem ao cavalo, porém os primeiros estão longe de ser uma ameaça e as peças brancas podem criar desagradáveis ameaças
 
26.Dd3! h6 27.Tb1!?
 
Talvez a melhor ordem seja 27.Cc6 Tee8 28.Tb1±
 
27...Df2 28.Cc6 Tc7 29.Dd6 Dc2!
 
As pretas criaram certo contrajogo
 
30.Dxc7 Dxb1+ 31.Rh2 Db2
 
Porém este lance volve estragar a posição. Era necessária 31...De4 se bem que a posição das brancas é preferível após 32.Tg3 Ta8 33.De5
 
32.Tg3 Ta8
 
O erro derradeiro. Era única 32...Df6 33.Tg4±
 
33.Ce5+- Df2
 
33...Tf8 34.Cg4 Rh7 35.De7+-
 
34.Cg4 Dc5 35.Cxh6+ Rh7 36.Dxf7 De5 37.Dg6+ 1–0
 
O leitor pode achar os dados do torneio (resultados das rodadas, emparceiramento, posições e todas as partidas disputadas até o momento) no seguinte link do site chess-results:
 

Dois líderes com 100%



SEMIFINAL 1 DO CAMPEONATO BRASILEIRO: CRÔNICA DA RODADA 3
Pelo mestre internacional Luis Rodi
 
Com o acontecer das rodadas, vamos tendo duelos mais equilibrados, se bem que a diferencia –nas primeiras mesas- ainda é grande, chegando a certos casos ser de quase duzentos pontos. Com isso, os jogos na seção superior se estendem mais no tempo, enquanto as definições rápidas acontecem normalmente nos tabuleiros mais baixos.
Hoje, no café da manha, tivemos uma interessante conversa (o AI Elcio Mourão, o gm Everaldo Matsuura, o mf Dirceu Viana, Kleber Ferreira, Mario Galati e quem isto escreve) acerca dos empates rápidos, que parecem ser a máxima preocupação dos organizadores de todo o mundo. Diversas soluções foram criadas: desempate que premia número de vitórias, modificar a pontuação (como na regra de Bilbao: 3 pontos ao vencedor e um ao empate) porém na minha modesta opinião a melhor solução é melhorar as condições de jogo: se organizam provas com ritmos matadores de duplas rodadas sucessivas, quem pode criticar a um enxadrista que faz um empate rápido para reservar forças em vez de pendurar tudo pelo cansaço... alias, o melhor exemplo é o último campeonato nacional brasileiro: a porcentagem de empates rápidos foi pequena, mas claro que se realizava um jogo por dia, sem duplas rodadas. Assim é bom jogar; da para preparar o jogo e descansar adequadamente antes da rodada. No entanto, Matsuura diz que o problema é cultural –parece que aqui no Brasil não há tanta costume de jogar uma partida por dia- e outros apontam ao principal problema: o económico, porque quem pode deixar o trabalho tantos dias? Bem, também é certo que a maioria dos mestres não faz outra cosa na vida que jogar xadrez! –OK, os pobres organizadores têm que arcar com o gasto de mais diárias e isso sim é um problema mais sério-. De qualquer jeito, a nossa conversa foi mais teórica que real: o fantasma dos empates rápidos ainda não apareceu em Guarapari, e até amigos de toda a vida (é... podes ter vinte anos e amigos de toda a vida) estão tirando as peças para acima. Bom espírito. Quase santo.
Passadas três horas de jogo, nas primeiras mesas somente há uma definição: a vitória, levando as pretas, do grande mestre Everaldo Matsuura sobre Kleber Ferreira, após uma abertura Bird que derivou a Siciliana. Nos tabuleiros que envolvem aos líderes segue a luta.
Finalmente, dois dos enxadristas conseguem se manter no 100% de aproveitamento: o grande mestre Krikor Mekhitarian, que ganha de Álvaro Aranha após interessante jogo, e o mestre internacional Christian Toth, que realizou uma boa tarefa posicional na Inglesa que empregou contra Luiz Abdalla. Os líderes se enfrentam agora pela quarta rodada; a meio ponto deles há seis enxadristas: o grande mestre Everaldo Matsuura, os mestres internacionais Evandro Barbosa e Diego di Berardino, Mateus Mendonça, Felipe Barreto e Vitor Carneiro.
 Aranha Filho,Alvaro Z (2280) - Mekhitarian,Krikor Sevag (2524) 
Guarapari (3.1), 02.11.2012
1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cc3 Bb4 4.e3 b6 5.Cge2
O desenvolvimento de moda nesta variante Rubinstein, pelo fato de ser recomendado nos mais recentes livros de repertório branco
 
5...c5 6.a3 Ba5
 
Postergando a troca até momento mais favorável. Feita de forma imediata, somente entrega o par de bispos às brancas, sem obter a cambio o tradicional complexo de peões dobrados
 
7.Tb1 Ca6 8.Bd2 0–0 9.d5!?
 
 
Uma ideia introduzida na prática nada menos que por Kasparov (no seu jogo contra Romanishin, Minsk 1979) [9.Cg3 é uma possível alternativa aqui, mais sólida
 
9...Te8
 
Muito pouco empregada... porém as pretas estão obtendo excelentes estatísticas nesses poucos jogos onde este lance foi utilizado! Um par de alternativas: a) 9...exd5 10.cxd5 d6 11.Cf4 leva a uma formação de tipo Benoni que pode ser algo melhor para as brancas; b) 9...d6 10.Cf4 e5 11.Ch5 Bf5 12.Cxf6+ Dxf6 13.Tc1 Dg6 14.h4 h5 15.Be2 Dxg2 16.Bf3 com compensação, Gardner - Kovalyov, Edmonton 2012
 
10.g3
 
10.d6 deveria ser o lance crítico aqui, porém as pretas podem trocar em c3 e tentar explorar a diagonal maior branca. No entanto, merece atenção 10.Cg3!? como em Ginsburg - Kacheishvili, EEUU 2010
 
10...Bxc3!
 
No momento certo, para pressionar pela diagonal. A troca é novidade; previamente tinha se empregado 10...d6 11.Bg2 (Bekker Jensen - Jensen, Koge 1997) porém as brancas podem reclamar a iniciativa nesse caso
 
11.Bxc3 Bb7 12.Bg2 Cc7
 
 
A posição oferece chances para os dois lados, e ambos os mestres podem ficar satisfeitos: o das brancas porque o par de bispos conta; o das pretas porque tem uma formação benoni onde um dos problemas típicos -a falta de espaço- foi resolvido mediante a troca de peças menores em c3
 
13.0–0 exd5 14.Bxf6
 
14.Cf4 sem trocar esta peça é também interessante
 
14...Dxf6 15.Cf4 Te5 16.Cxd5!?
 
As brancas talvez não deveriam envolver na troca os cavalos -o delas é mais ativo-; possivelmente 16.b4!? d6 17.Te1 seja uma ideia razoável
 
16...Cxd5 17.cxd5 d6 18.e4 Tae8
 
Pode ser mais precisa 18....a5 ou 18...Ba6. A retirada da torre permite as brancas o seguinte contrajogo pela coluna
 
19.Da4! a6 20.f4!?
 
Tentadora, porém talvez 20.b4! seja melhor ideia
 
20...T5e7 21.Tbe1?!
 
Perdendo a sequência seguinte, que acaba com ganho material para as pretas; 21.Dd1 b5 22.Tf2 com aproximado equilíbrio
 
21...b5 22.Dc2 Dd4+ 23.Tf2
 
23.Df2 Bxd5 ou 23.Rh1 Bxd5 são também melhores pára as pretas
 
23...Bxd5 24.Td1 Bxe4 25.Bxe4
 
25.Txd4 Bxc2 26.Txd6 Te1+ 27.Tf1 Rf8 com vantagem para o segundo lado
 
25...Dxe4 26.Dxe4 Txe4 27.Txd6 T4e6 28.Tfd2 Rf8
 
 
O final de torres é melhor para as pretas. O peão a mais deveria ser suficiente, porém as torres brancas são ativas e oferecem algum contrajogo
 
29.Rf2 Txd6 30.Txd6 Te6 31.Td7 Re8 32.Tc7 c4
 
Apesar das aparências, este tipo de posições não é simples de jogar. A torre branca é muito ativa, cortando ao rei preto, e cada progresso custa. Com tempo no relógio, o primeiro jogador pode oferecer uma resistência firme, mas aqui ambos os mestres dispõem de escassos minutos nos seus relógios
 
33.a4!?
 
33.Ta7 oferece mais resistência
 
33...Td6 34.Re2 Td3! 35.b4
 
35.Ta7 Tb3 com posição estrategicamente ganhadora para as pretas
 
35...Tb3–+
 
O resto é simples
 
36.a5 Txb4 37.Ta7 Tb2+ 38.Re3 c3 39.Txa6 b4 40.Tc6 Rd7 41.Tc4 c2 42.a6 b3 43.Rd2 Tb1 44.a7 Td1+ 0–1

Guarapari: fotos da rodada 3

Como é habitual, oferecemos algumas fotos dos protagonistas da semifinal 1 disputada na cidade de Guarapari (belas praias!) em Espírito Santo.
 
 
Claudio Ferreira e Jonair Pontes, da FESX, organizadores da prova.
 
 
O árbitro internacional Elcio Mourão, uma das mais reconhecidas autoridades técnicas do continente
 
 
O capixaba melhor pré-classificado, Jorge Wilson da Rocha
 
 
Jorge Andor, de São Paulo, enfrentando Galati na mesa 10.
 
 
Mais um local: José Osorio, na mesa 9 nesta rodada.
 
 
Uma das revelações da prova, Vitor Carneiro empatou com o gm Matsuura na primeira rodada; leva 1,5 pontos e hoje enfrenta Dirceu Viana


O gaúcho Rodrigo Borges da Silva é um dos líderes com 2/2


Klaus Gotz: empate com o MI Molina na primeira rodada


Fabricio Hupp e a difícil tarefa de enfrentar a um mestre internacional que necessita os pontos sim ou sim


E o goiano Guilherme Rezende, aqui enfrentando a siciliana de Lincoln Lucena

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O primeiro clássico

SEMIFINAL 1 DO CAMPEONATO BRASILEIRO: CRÔNICA DA RODADA 2
Pelo mestre internacional Luis Rodi

Os infortúnios do sistema suíço permitem que aconteçam coisas como essa. Uma partida entre dois dos favoritos do torneio já na rodada 2, como se fosse um clássico antecipado. Porém, claro, essas coisas acontecem, sobretudo quando os protagonistas vem de empatar no seu jogo da primeira rodada, onde teoricamente enfrentaram adversários mais fracos. Em qualquer caso, uma tragédia que pode deixar a um dos principais animadores da prova em situação mais que delicada no caso de derrota. E ai estão, enquanto escrevo estas primeiras linhas, batalhando no seu tabuleiro (10) o grande mestre Everaldo Matsuura e o mestre internacional Roberto Molina. O jogo da rodada, sem dúvida. Rodada que começou algo mais tarde do previsto, justamente porque Molina acabou seu jogo da primeira rodada quase ao limite do começo da segunda.

Neste primeiro dia de competência a cidade de Guarapari mostrou um clima, quanto menos caprichoso. Nublado na manha, sol forte na tarde e, para cantar bingo, uma ligeira chuva ao momento de se realizar esta segunda rodada.
A sala de jogo se apresenta bem iluminada e confortável. A distancia entre as mesas é boa, assim como as demais comodidades.

21.30 – Aproximadamente hora e meia de jogo e finalizou a partida entre Matsuura e Molina com vitória para o primeiro. O jogo se desenvolveu numa bem conhecida linha da Caro Kann (ataque Panov); as pretas lograram o equilíbrio, porém uma série de imprecisões (me digam que não é o cansaço!) forma deixando a sua posição cada vez mais delicada, até cair sob ataque direto. O primeiro clássico da semifinal acaba rápido:

Matsuura,Everaldo (2483) - Molina,Roberto (2417)

Guarapari (2.10), 01.11.2012

 1.e4 c6 2.d4 d5 3.exd5 cxd5 4.c4 Cf6 5.Cc3 e6 6.Cf3 Bb4 

Este desenvolvimento é uma receita de Karpov para combater o temível ataque Panov. Mais clássica é 6...Be7
7.cxd5 Cxd5 8.Bd2 0–0 9.Bd3 Cc6 10.0–0

Uma tabiya da Caro Kann, com mais de 700 jogos na minha base. O seguinte plano -voltar com cavalo a f6 para ceder d5 ao outro cavalo- também é uma ideia popularizada por Karpov

10...Cf6 11.Bg5 Be7 12.Te1

O lance de moda na elite. No entanto, a mais popular segue sendo 12.Tc1, introduzida na prática no século XIX (Tinsley - Mortimer, Londres 1890)

12...b6

Aqui são alternativas populares 12..h6 e 12...Cb4, porém a escolha do mestre mineiro é a mais usual nesta posição e depois do próximo lance leva por transposição a um bem conhecido cenário -que também pode surgir desde aberturas de peão dama, por exemplo a Nimzoindia-

13.a3 Bb7 

 
14.Bb1

No entanto, aqui Matsuura se afasta do lance mais comúm, que é 14.Bc2 Um exemplo recente com temas semelhantes aos da nossa partida é 14...g6 15.Dd3 Cd5 16.Bh6 Te8 17.Bb3 Ca5 18.Ba2 -é este o tempo que o lance de Matsuura Bb1 quer ganhar?- 18...Cxc3 19.bxc3 Tc8 20.Ce5 Bg5 21.Dh3 Bxh6 22.Dxh6 Te7 23.Te3 Df8 24.Dh4 Tec7 (Gerzhoy - Jumabayev, Istambul ol 2012). Agora 25.d5 ofereceu alguma vantagem as brancas, porém aqui teria sido matadora 25.Cxf7!

14...Cd5

Tentando surpreender. Frente ao mesmo adversario Molina tinha jogado 14...Tc8 (um lance introduzido na prática por Korchnoi), alcançando o equilíbrio após 15.Dd3 g6 16.Ba2 Te8 17.Tad1 Cd5 18.Cxd5 (18.Ce4!?) 18...Bxg5 19.Cc3 Bf6= Matsuura - Molina, Rio de Janeiro 2007

15.Dd3 g6 16.Bh6 Te8 17.Ba2

Uma interessante ideia -ver comentário ao lance 14-. Uma vez fechada a diagonal b1–h7 esta peça é mais útil nesta outra diagonal, visando o controle da casa d5. E a resposta natural -troca em c3- permite ao primeiro jogador fortalecer o peão isolado

17...Cxc3 18.bxc3

Agora as brancas têm peões colgantes. As pretas podem contrajogar pelas colunas c e d contra eles  

 
18...Bf6!?

A novidade -não somente as brancas podem melhorar seus bispos!-. Com antecedência tinham-se empregado 18...Bf8 e 18...Tc8 que foi a escolha de Panno nesta posição, porém aqui em vez de 19.Tad1 (Hoffman - Panno, Argentina 1999) as brancas podem tentar 19.d5!?, tirando proveito da colocação do Ba2

19.Tad1 Bg7

19...Tc8!? é uma opção razoável, visando pressionar pela coluna c 20.c4 Ce7 21.Ce5 Cf5 22.Bf4 Bg5=

20.Bf4!?

Talvez a melhor decisão. Muitos se apressariam a trocar em g7 para enfraquecer ao rei, porém o lance feito por Matsuura é mais forte, visando que os mais ativos bispos brancos combinados com possíveis avanços de peão no centro podem ser favoráveis. E no caso de ataque direto, manter esta peça ajuda na posterior exploração das casas negras fracas em campo preto

20...Dd7?!

Molina, possivelmente cansado pela sua batalha prévia na primeira rodada (mais de 150 lances), começa perder pé na posição. Aqui teria sido preferível 20...Ce7!? 21.c4 Bxf3 22.Dxf3 Cf5 23.d5 e5 onde as pretas dispõem de argumentos para lutar pelo equilíbrio

21.h4! 



O avanço deste peão em função ofensiva é temático nas posições de peão isolado no esquema Panov (ou na Nimzoindia ou gambito de dama aceito) e na presente posição oferece a iniciativa às brancas. No entanto, o rápido desmantelamento das pretas não podia se antecipar.

21...Tad8 22.h5 Bf6?!

Melhor é 22...Ce7 23.Ce5 Da4²

23.Cg5± Ca5?

As pretas não têm tempo para manobras na ala de dama. Esta peça devia se adicionar à defesa do seu rei: 23...Ce7 24.Dh3±

24.hxg6 hxg6 25.Dh3 De7

25...Bxg5 26.Bxg5+- As fraquezas nas casas negras condenam ao rei preto

26.Dh7+

Se 26...Rf8 27.Cxe6+ fxe6 28.Bh6+ ganha (28...Bg7 29.Dh8+). Uma importante vitória para Matsuura, que se recupera assim do começo duvidoso 1–0

A partida mais espetacular da segunda rodada foi a vitória de Marcio Baeta sobre Alessandro Alves, uma caçada ao rei das antigas. OK, o jogo não está isento de erros, porém posições de natureza tática são impossíveis de administrar com um cálculo perfeito, a menos que você se chame Kasparov...

Baeta,Marcio (2066) - Alves,Alessandro (1856)

Guarapari (2.13), 01.11.2012

1.e4 c5 2.d4 cxd4 3.Cf3 d6 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 a6 6.Bg5 e6 7.f4 Be7 8.Df3 Dc7 9.0–0–0 Cbd7 10.Be2 b5 11.Bxf6 Cxf6 12.e5 Bb7 

 
13.Cdxb5!?

A entrega é novidade. O lance mais usual é o surpreendente 13.exf6! empregado primeiro em Keres - Fischer, Bled (ct) 1959 13...Bxf3 14.Bxf3 Bxf6 15.Bxa8 d5 16.Bxd5 Bxd4 17.Txd4 exd5 foi a continuação desse clássico. Keres capturou com cavalo em d5; a teoria contemporânea indica que a mais forte é 18.Te1+

13...axb5 14.Cxb5 Db6?!

Em vez deste mecânico lance, 14...Db8! teria colocado em problemas as brancas na hora de demonstrar o valor da sua compensação

15.Db3© Cd5 16.exd6

16.Cxd6+ Bxd6 17.Dxb6 Cxb6 18.Txd6 Cd7 (18...Cd5 19.Bb5+ Rf8 20.Td7²) 19.Thd1©

16...Bd8

Uma possível opção é 16...Bxd6! 17.Cxd6+ Dxd6 18.Dxb7 Dxf4+ 19.Rb1 0–0 20.Db3 Tfc8© As pretas têm adequada compensação pelas possibilidades de iniciativa contra o roque branco

17.d7+ Re7

17...Rxd7 18.c4²; 17...Rf8!?

18.Bf3² Bc6?

18...Ta5 19.c4² 

 
19.Txd5!?

Aqui começa a caçada ao rei! Também forte era 19.Bxd5! por exemplo 19...Bxd5 20.Txd5 Rf8 21.Td2+-

19...exd5 20.Db4+

Ou também 20.Te1+ Rf6 21.Dc3+ Rg6 22.Cd6+-

20...Rxd7 21.Bg4+ f5

Necessária; 21...Re8 22.Te1+ ganha de imediato

22.Bxf5+ Re8 23.Te1+ Rf7 24.Be6+ Rg6

 
O momento crítico. Como devem continuar as brancas? 

25.Db3?

25.Cd6!! teria sido um brilhante arremate. Se 25...Dxb4 (25...Bd7 26.Dd2!+-) 26.Bf7+ Rh6 27.Cf5#

25...Dxb5?

25...Df2! e as pretas ganham (!), por exemplo 26.Dd3+ Rh6 27.Tf1 Bxb5-+

26.Dg3+

Após este lance as brancas voltam ter vantagem decisiva

26...Rh6 27.Dh3+ Rg6 28.f5+ Rf6 29.Dh4+ g5 30.Dh6+?

Agora o condutor das brancas têm que começar de novo, como um moderno Sisifo. Simples era 30.Dd4+ Re7 31.Bxd5+ Rd7 32.Bc4+ ganhando

30...Re7 31.Bxd5+ Rd7 32.Dg7+ Rd6?

Um rei com tendência suicida! 32...Rc8 33.Be6+ Bd7 34.Dxh8 Bxe6÷

33.De5+

Ainda mais simples é 33.Bxc6+-

33...Rc5

 
Porém desde aqui Baeta faz os melhores lances, recuperando o material com interesse:

34.Bc4+! Rxc4 35.Dc3+ Rd5 36.Te5+ Rd6 37.Txb5 Bxb5 38.Dxh8+- g4 39.Dd4+ Rc7 40.f6 Txa2 41.Dc5+ Bc6 42.f7 Ta8 43.f8D Bg5+ 44.Dxg5 Txf8 45.Dg7+

Uma boa recuperação do veterano enxadrista, após a derrota da primeira rodada  com Di Berardino 1–0

A jornada entregou também algumas tragicomédias, sendo talvez a mais destacada a que segue:

Vieira,Paulo Cesar (1904) - Marques,Johan
Guarapari  (2.17), 01.11.2012

 
50...Rg2 [Coloque o leitor os signos de interroga que quiser; 50...Rf3=] 51.h4! 1–0 

Após esta segunda rodada são sete os líderes: o grande mestre Krikor Mekhitarian, os mestres internacionais Evandro Barbosa e Christian Toth, os mestres fide Álvaro Aranha e Luiz Abdalla e os enxadristas gaúchos Felipe Menna Barreto e Rodrigo Borges. A tabla completa (e os resultados das primeras rodadas, os jogos e o emparceiramento da terceira rodada) pode-se ver no seguinte link de chess-results:

Segunda rodada em Guarapari

São 18 os líderes da prova após a primeira rodada, que teve como surpresa os empates do grande mestre Everaldo Matsuura e do mestre internacional Roberto Molina, ante Vitor Carneiro e Klaus Gotz respetivamente. Por esses infortunios do destino, matsuura e Molina se enfrentam nesta segunda rodada que acaba de começar nas instalações do SESC de Guarapari.
Mais algumas fotos dos participantes da prova:
 
 
Lincoln Lucena (Brasília), ex adversário (pela presidencia da fide) de Florencio Campomanes.
 
 
Christian Toth (São Paulo). O mestre internacional vem de cumprir uma excelente atuação no Continental de Mar del Plata, onde esteve perto das vagas de classificação para a Copa do Mundo.
 
 
Marcio Baeta Netto, ex campeão brasileiro senior, residente em Niteroi (RJ) e asiduo participante nos torneios abertos no Brasil. Proximamente representa ao país no mundial senior na Grécia.
 
 
O grande mestre Krikor Mekhitarian - Teve uma boa atuação em Mar del Plata (esteve muito perto da classificação); nesta prova é o principal pré-classificado
 

O grande mestre Everaldo Matsuura após um empate na primeira rodada enfrenta ao MI Molina pela segunda. O mestre paulista vem de obter o segundo lugar na copa Contaud em Cuiabá.


O mestre fide carioca Dirceu Viana, grande conhecedor dos clássicos e admirador de Smyslov. Teve uma boa vitória pela primeira rodada levando as pretas, nesta segunda rodada enfrenta a...


...o também fluminense Kleber Ferreira, amante do jogo violento dos gambitos.


Mateus Nakajo Mendonça, a revelação do Regional Sudeste realizado dias trás no clube Tijuca de Rio de Janeiro. Hoje enfrenta Di Berardino na mesa 2


Ricardo Schutt, de São Paulo, levando as pretas contra o mi Evandro Barbosa.


E Mario Augusto Galati, também de São Paulo, na sua partida contra Àlvaro Aranha.
 
 

Como Capablanca, porém diferente...


SEMIFINAL 1 DO CAMPEONATO BRASILEIRO: CRÔNICA DA RODADA 1
Pelo mestre internacional Luis Rodi

Claudio Ferreira, natural de Rio de Janeiro, mas morador de Guarapari faz quase vinte anos, onde se desempenha na função pública na área de turismo, é o encarregado de dar as boas vindas aos participantes. Não é uma tarefa desconhecida para ele, já que seu amor pelo xadrez levou-o a organizar, alguns anos trás, uma serie de torneios magistrais com participação de mestres estrangeiros, entre eles quem você os escreve. Muito do fato de ter ganhado Guarapari o direito a sediar esta competência se deve ao seu trabalho, que é importante também na Federação Espirito Santense de Xadrez (FESX) –onde é o vice-presidente de marketing-, a organizadora oficial da prova. Ao seu lado esquerdo, Jonair Pontes, o presidente da instituição e residente da Santa Maria de Jetibá que tanto está fazendo pelo xadrez escolar. Na direita, o árbitro internacional Elcio Mourão, procedente de Mendes, RJ, que é a principal autoridade técnica do torneio. No extremo, outro árbitro internacional, que nesta oportunidade é o diretor da prova: Pablyto Robert Baiôco Ribeiro, que além de advogado reconhecido em Vitória é o presidente da Confederação Brasileira de Xadrez (CBX). Eles são os encarregados de receber aos quase quarenta participantes que, desde hoje, lutam pelas quatro vagas em jogo para a final da edição 79ª. do Campeonato Nacional.
O começo da prova oferece enfrentamentos que podam ser considerados desiguais: o emparceiramento funciona cortando a tabla de participantes em dois –de acordo a sua pré-classificação- e fazendo jogar ao primeiro de cada uma delas entre se. Isto é, o primeiro pré-classificado, grande mestre Krikor Mekhitarian, acaba enfrentando ao número 21 da prova, Guilherme Abreu (mas sobre este jogo depois). No entanto, alguns experimentados enxadristas com elo mais baixo sempre logram dificultar a tarefa dos mestres e por isso alguns jogos se fazem mais longos.
Entre os primeiros que ganham seu jogo está o capixaba Jorge Wilson da Rocha, que é irmão de um dos mais queridos, preocupados e talentosos médicos de Rio de Janeiro –também ele amante do xadrez, não sei se dedicou mais horas à formação dos segredos de Hipocrates que aos de Lasker, Petrosian, Kasparov e Cia-. O seu jogo de agora me faz lembrar uma velha anedota em Argentina, quando eu era muito novo e participava dos torneios de xadrez realizados na costa atlântica desse país. Em um deles, se me acerca um dos melhores enxadristas da zona, o arquiteto Mario Mazur, e me diz: “Não sei por que perdi, eu joguei a Caro Kann seguindo uma receita de Capablanca... trocamos bispos de cor clara, fiz xeque com dama em a5 e depois disso cambie essa peça desde a6 para deixar suas casas brancas fracas”. O detalhe era que Capa quando fez isso se assegurou de ter um cavalo em b8 para recapturar em a6, enquanto meu amigo teve que tomar com peão e assim estragar toda a sua formação na ala de dama... o mesmo que acontece na partida que segue:
Rocha,Jorge Wilson (2221) - Arruda Filho,Ivo (1849)
Guarapari (1.12), 01.11.2012
 1.e4 c6 2.d4 d5 3.e5 Bf5 4.Ce2 e6 5.Cg3 Bg6 6.h4 h5?! 7.Bd3 Bxd3 8.Dxd3 Da5+ 9.c3 Cd7
Curiosamente, aqui 9...Da6 teria dado uma versão correta do plano de Capablanca
10.Cd2 c5 11.0-0 cxd4 12.cxd4 Da6?!
A posição das brancas já é algo melhor, porém este lance dificulta as coisas ainda mais; 12...Ce7!? 13.Cf3²
13.Dxa6 bxa6 14.Cf3
A melhor estrutura branca faz diferencia, como naquela velha partida de Mazur
14...Ce7 15.Bd2 Tb8 16.b3 Cc6 17.Tfc1 Tc8 18.Tc2 Be7 19.Tac1 Cdb8 20.b4!
O primeiro passo para o aproveitamento da cravada
20...g6 21.a3 Rd7 22.Ce2 f6?
Um novo enfraquecimento, esta vez decisivo 22...Tc7 23.Bg5 Thc8 era a possibilidade de maior resistência
23.Bf4 fxe5 24.Bxe5+- Thg8

Agora as brancas ganham com uma manobra de distração
25.Bxb8 Cxb8 26.Ce5+ Rd6 27.Txc8 1–0
Um dos últimos jogos em finalizar foi o disputado na mesa 1, com Guilherme Borges enfrentando Krikor Mekhitarian. O grande mestre achou uma digna e forte resistência do seu menos conhecido adversário, que durante grande parte da luta manteve o equilíbrio.
Abreu,Guilherme (2085) - Mekhitarian,Krikor (2524)
Guarapari (1.1), 01.11.2012
1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cc3 Bb4 4.e3 0–0 5.Bd3 d5 6.Cge2 b6 7.0–0 Bb7 8.cxd5 exd5 9.Cg3 Te8 10.Cf5 g6 11.Ch6+ Rg7 12.Cg4 Cbd7 13.f4 Cxg4 14.Dxg4 Cf6 15.Dh4 Be7 16.f5 Ce4 17.De1 Bh4 18.g3 Bf6 19.Cxe4 dxe4 20.Bc4 c5 21.dxc5 Tc8 22.fxg6 hxg6 23.Bd2 Txc5 24.Bc3 Tf5 25.Txf5 gxf5 26.Td1 Dc7 27.Bxf6+ Rxf6 28.Dc3+ Te5 29.Dd4 Re7 30.h4 Tc5


O momento crítico da luta

31.Dg7?

As brancas não vão ter compensação pela peça entregada. A incrível 31.b3! no seu lugar merecia séria atenção, por exemplo 31...Dxg3+ 32.Rf1 onde as pretas devem subministrar xeque perpétuo. As brancas ameaçam com mate em d8 e a defesa natural com 32...Dc7 é inferior por 33.Dg7±. Claro que as pretas podem tentar outras ideias, por exemplo 31...b5 32.Be2 Dxg3+ 33.Rf1 Td5 se bem que as consequências de 34.Dxa7 Txd1+ 35.Bxd1 não são claras.

31...Txc4-+ 32.Dg5+ Re6 33.Dh6+ f6 34.Dg6 Bd5 35.h5 Tc1 36.Dg8+ Re7 37.Dg7+ Bf7 0–1

Entre as surpresas da rodada –poucas, por certo- destaque para o empate de Vitor Carneiro contra o grande mestre Everaldo Matsuura. Este último chegou ter uma ligeira vantagem no meio jogo, porém não pode concretiza-la e os acontecimentos levaram a um final inofensivo com três peões de cada lado no mesmo setor do tabuleiro. Outro resultado surpreendente foi o empate entre o mestre internacional Roberto Molina e Klaus Gotz, no que foi o jogo mais extenso da rodada: mais de cinco horas de duração onde o primeiro tentou impor uma posição com torre e cavalo contra torre.

Semifinal 1: primeiras imagens

Começou faz escasos minutos a semifinal da região 1 do 79o. Campeonato Brasileiro de xadrez que se realiza nas instalações do SESC em Guarapari. Algumas imagens da prova e seu entorno:
 
 
A vista do hotel SESC, desde uma das janelas da sala de jogo. O complexo se asemelha aos campus americanos: tem espacios arborizados, piscinas, diversas salas e restaurantes e até lojas.
 
 
Na inauguração da prova: o diretor do torneio Pablyto Robert -presidente da Confederação Brasileira de Xadrez-, o árbitro internacional Elcio Mourão e os dirigentes da Federação Espirito Santense de Xadrez Claudio Ferreira -com a palavra, dando as bem vindas aos participantes- e Jonair Pontes -o titular dessa institução-.
 
 
O MI Diego di Berardino, segundo pré-classificado. Clássico carioca na primeira rodada contra Marcio Baeta.
 
 
O MI mineiro Roberto Molina, recem chegado da Argentina, onde participou do torneio Continental realizado em Mar del Plata e um fechado na capital desse país, Buenos Aires.
 
 
O mestre FIDE paulista Álvaro Aranha, que é também o capitão da equipe olímpica feminina.
 
 
E uma vista da sala de jogo, com a partida Carneiro - Matsuura em primeiro plano