quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Original teoria de Kaufman no final berlinense

Larry Kaufman é um grande mestre estadounidense -obteve o título ao vencer no campeonato mundial senior no ano 2008-, autor de diversas obras teóricas. Em uma delas, ele recomenda (para as pretas) a seguinte linha do final berlinense:

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 Cf6 4.0–0 Cxe4 5.d4 Cd6 6.Bxc6 dxc6 7.dxe5 Cf5 8.Dxd8+ Rxd8 9.Cc3 Re8 10.h3 Be7


A ideia central nesta variante consiste em trocar um par de cavalos mediante ...Ch4, explicando que um objetivo posicional para o lado que conta com dois bispos é trocar seu cavalo remanente, pois desse jeito se elimina uma peça que o adversário pode utilizar para obter uma troca por um dos bispos.
No seu livro "The Berlin Wall", John Cox sinala: "eu nunca ouvi esse principio, porém parece ser uma manobra útil, já que desde um ponto de vista ela salva tempos: as pretas não precisam jogar Cf5-e7-g6, como não precisam jogar ...h6 antes de levar seu bispo à casa e6. De fato, tal como o ditado de Kaufman sugiere, a troca de cavalos tem o mérito de solidificar a posição do bispo em e6".

Uma recente partida com este tema:

Dvirnyy,D (2492) - Rusev,K (2518)
2nd Mantova Open A 2012 Mantova ITA (5), 05.01.2012

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 Cf6 4.0–0 Cxe4 5.d4 Cd6 6.Bxc6 dxc6 7.dxe5 Cf5 8.Dxd8+ Rxd8 9.Cc3 Re8 10.h3 Be7 11.g4 Ch4 12.Cxh4 Bxh4 13.Rg2 h5 14.f3 Be6 15.Be3 a6 16.Tfd1 Td8 17.b3 Be7 18.Txd8+ Rxd8 19.Td1+ Re8 20.Ce4 hxg4 21.hxg4 f5 22.exf6 gxf6 23.Bd4 Th6 24.Te1 ½–½

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fazendo fácil o difícil

No seguinte final as brancas, conduzidas pela ex campeã mundial Maia Chiburdanidze, realizam uma tarefa modelo na condução de um final de torres com destino de livro, explorando os elementos positivos da sua posição para se impor em um difícil final. Certo, ela teve ajuda da adversária na posição crítica -as pretas podiam ter exercido uma forte resistência se em vez de seu lance 41...Rh7 escolhiam 41...g6!? porém isso não invalida o bom exercício técnico realizado pelas brancas na procura da concretização da sua ligeira vantagem do começo

Chiburdanidze,Maia (2500) - Cmilyte,Viktorija (2503)
ACP Women Cup 2012 Tbilisi GEO (2.4), 18.02.2012



[Comentários do MI Luis Rodi]

1.d4 Cf6 2.Cf3 e6 3.c4 c5 4.e3 a6 5.Cc3 d5 6.a3 Cc6 7.b3 Bd6 8.Bd3 0–0 9.0–0 De7 10.Bb2 b6 11.Ca4 Tb8 12.Dc2 h6 13.dxc5 bxc5 14.cxd5 exd5 15.Bxf6 Dxf6 16.Cxc5 Ce5 17.Cxe5 Dxe5 18.g3 Bxc5 19.Dxc5 Txb3 20.Bc4 Tc3 21.Dxd5 Df6 22.Be2 Td8 23.Da5 Tc2 24.Tad1 Txd1 25.Txd1 Txe2 26.Dd8+ Dxd8 27.Txd8+ Rh7 28.Txc8 Ta2 29.Tc3 h5


As brancas têm peão a mais, porém a ativa colocação da torre preta augura uma firme resistência das pretas. No entanto, a ex campeã mundial faz fácil o difícil e joga de forma modélica (sendo uma partida jogada em ritmo rápido, dobremente meritório). Vamos explicar passo a passo os acontecimentos:

30.Tc5!

Com esta ideia, as brancas obtém uma importante diferença de peões na ala do rei. As pretas não têm como impedir esse desequilibrio: se o peão h é defendido, então Ta5 ganha o peão a6 com posição teoricamente ganha

30...Txa3 31.Txh5+ Rg6 32.Tc5

As brancas obtiveram um 4:2 na ala do rei. A sua maioria vai avançar apoiada pelo rei. Na procura de contrajogo, as pretas fazem uso do seu elemento positivo, o peão livre -no entanto, ele pode ser controlado de forma simples-

32...a5 33.Rg2 Ta2 34.h4


A primeira jogadora começa o avanço. Dois cenários são possíveis nesta estrategia: a) se produz uma simplificação que deixa dois peões livres na ala do rei; b) os peões e o mesmo rei são empregados para criar temas de ataque contra o rei preto

34...f6 35.g4 a4 36.Ta5!

A torre se posiciona detrás do peão livre de forma imediata, como ensinam os livros clássicos de finais. Esta peça mantém vigilancia sobre o peão livre inimigo ao tempo que posicionada ativamente interviene nas funciões ofensivas brancas

36...Ta1 37.Rg3 Ta2 38.f3 a3 39.h5+ Rh6 40.Rf4±

O rei e os peões brancos avançam de forma harmónica

40...Ta1 41.Ta8


41...Rh7?

41...g6 era necessária 42.hxg6 Rxg6 43.Ta6 a2 44.Ta7 Rh6 45.Ta5 Rg6 46.Re4 Rg7 47.f4 Rg6! (47...Tg1 48.Txa2 Txg4 49.Rf5 Tg3 50.Ta7+ Rh6 51.e4+- com a ideia Ta6) 48.g5 fxg5 49.Txg5+ Rf6 50.Ta5 é um exemplo do cenário a) onde as brancas obtiveram dois peões livres, porém aqui podem não ganhar! Por exemplo 50...Rg7 51.f5 Rf6 52.Ta6+ Rf7 53.Re5 Te1 54.Ta7+ Rg8 55.Txa2 Txe3+ 56.Rf6 Tf3=

42.Rf5 Tf1 43.f4!+-

Obviamente as brancas conservam as suas cartas de vitória. Seria um erro a troca do peão f pelo livre das pretas, toda vez que após 43.Txa3 Txf3+ as chances de vitória brancas ficam reduzidas a mínima expressão

43...Ta1


44.h6!

A última fase da partida tem lugar agora. O ativo posicionamento das forças brancas permite que o cenário b) mencionado no comentário ao lance 34 seja uma realidade

44...gxh6 45.Ta7+ Rg8 46.Rg6 Rf8 47.Rxf6 Re8

47...Rg8 48.Rg6 Rf8 49.f5 Tg1 50.Ta8+ Re7 51.f6+ Re6 52.Ta6+ Rd7 53.f7+-

48.e4

Mediante ameaças de mate as brancas finalmente obtiveram uma versão favorável -pela ativação do seu rei- do cenário a) -isto é: dois peões livres-

48...a2


Se preparando para trocar o peão passado por algúm dos peões brancos, porém...

49.Rf5! Rd8 50.e5 Re8

50...Rc8 51.e6 Rb8 52.Ta4+- não é melhor

51.e6 Rd8

As pretas abandonaram sem esperar 52.e7+ Re8 53.Rf6 (com a ideia Ta8+) onde 53...Te1 54.Txa2 Txe7 55.Ta8+ e Ta7+ ganha 1–0


 

Xadrez e selos postais


O xadrez é um tema recurrente no disenho dos selos postais. Uma das últimas edições, muito bonita por certo, foi a realizada no território inglês de Gibraltar com motivo de se celebrar o famoso open. Os quatro selos emitidos mostram algumas instancias de jogos realizados nesse torneio.
As peças, que têm valores entre dois peniques e duas libras, foram disenhadas por Stephen Perera e tem um tamanho de 25,7 x 39,5 mm.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Fier lidera na França

O grande mestre Alexandr Fier lidera em forma isolada no open de Rochefort (França) com 4 em 4 após vencer Harutjunyan. Entre os que compartilham a segunda colocação, com meio ponto a menos, aparece o gm Mekhitarian. Já Barbosa leva 3 e Abdalla e Molina, 2,5 unidades. A prova acaba o próximo 2 de março e o site oficial é: http://www.echiquier-rochefortais.com/index.php

A volta de Karpov


Após um longo tempo retirado dos tabuleiros (excepção feita de diversas participações em provas rápidas) o ex campeão mundial Anatoly Karpov voltou participar de uma competência pensada, na Bundesliga alemã, representando a equipe de Hockenheim.
No passado 26 disputou a sua primeira partida, que acabou em empate após o lendário mestre não poder impor um final com peão a mais (bispos de cor diferente atrapalhavam...). Aqui o jogo:


Karpov,A (2617) - Kraemer,M (2492)
Hockenheim GER (11.1), 26.02.2012
1.Cf3 Cf6 2.c4 e6 3.Cc3 d5 4.d4 Be7 5.Bf4 0–0 6.e3 Cbd7 7.Be2 dxc4 8.Bxc4 a6 9.a4 c5 10.0–0 cxd4 11.Dxd4 Cb6 12.Bb3 Dxd4 13.Cxd4 Bd7 14.a5 Cbd5 15.Cxd5 Cxd5 16.Be5 Tac8 17.Tfd1 Tfd8 18.Bxd5 exd5 19.Ce2 f6 20.Bc3 Be6 21.h3 Rf7 22.Td2 g5 23.f3 Bc5 24.Rf2 Te8 25.Bd4 Bb4 26.Bc3 Bc5 27.Cd4 Bd7 28.Te1 h6 29.Cc2 Bf5 30.Cb4 Bxb4 31.Bxb4 Tc2 32.Txc2 Bxc2 33.Bc5 Bb3 34.Tc1 Tc8 35.Tc3 Bc4 36.Bd4 Tc6 37.b4 h5 38.g4 Rg6 39.Tc1 f5 40.Tg1 hxg4 41.hxg4 fxg4 42.Txg4 Rf5 43.Bb6 Tc8 44.Bd4 Tc6 45.Tg1 Th6 46.Rg3 Th7 47.Tc1 Re6 48.Ba7 Tf7 49.Tc2 Bd3 50.Td2 Bf5 51.Bb6 Th7 52.Tg2 Th3+ 53.Rf2 g4 54.fxg4 Be4 55.Tg1 Th2+ 56.Rg3 Th1 57.Txh1 Bxh1 58.Rf2 Be4 59.Re2 Rf6 60.Bd8+ Re5 61.Bc7+ Rf6 62.Bf4 Re6 63.Bh6 Bg6 64.Bg7 Rf7 65.Bh8 Be4 66.Be5 Re6 67.Bf4 Bg2 68.Rd3 Bf3 69.g5 Rf5 70.Rd4 Be4 71.Rc5 Rg6 72.Rb6 Rf5 73.Bg3 d4 74.exd4 Rxg5 75.Rc5 Rf6 76.Rd6 Rf7 77.d5 Bf3 78.Bh4 Bg2 ½–½

O nexo entre avaliação e cálculo

Dentre os lendários encontros entre as duas K, o celebrado nas cidades de Nova York e Lyon no ano 1990 foi um dos mais interessantes desde o ponto de vista criativo, com ambos os grandes mestres lutando pelo ponto sem importar cor. O seguinte exemplo -tomado da quarta partida daquele match- se enmarca no tema enunciado no título desta postagem

Kasparov,Garry (2800) - Karpov,Anatoly (2730)
World Championship 35th-KK5 Lyon/New York (4), 17.10.1990

[Comentários do MI Luis Rodi]
1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Ba4 Cf6 5.0–0 Be7 6.Te1 b5 7.Bb3 d6 8.c3 0–0 9.h3 Bb7 10.d4 Te8 11.Cbd2 Bf8 12.a4 h6 13.Bc2 exd4 14.cxd4 Cb4 15.Bb1 c5 16.d5 Cd7 17.Ta3 f5 18.exf5 Cf6 19.Ce4 Bxd5 20.Cxf6+ Dxf6 21.Bd2 Dxb2 22.Bxb4 Bf7 23.Te6 Dxb4 24.Tb3 Dxa4 25.Bc2 Tad8 26.Tbe3 Db4


Uma instância crítica. Em linhas gerais, as brancas devem demonstrar que a sua iniciativa no centro e na ala do rei compensa adequadamente o material empregado -cabe considerar um agravante: as brancas não entregaram meramente material, mas também uma ala completa (!)- Os quatro peões livres das pretas ganham qualquer tipo de final -e aqui temos um detalhe importante: baixo nenhuma circunstância as brancas podem permitir a troca de damas-, o que obriga ao primeiro jogador a manter um grande dinamismo na posição, dando as suas peças a maior atividade possível ao tempo de criar ameaças no setor onde elas têm influencia. A avaliação, pois, é clara, e conduz diretamente ao plano lógico, mas na hora de realizar o lance como seguer?
27.De2 parece uma boa tentativa, fortalecendo o domínio da coluna e criando a ameaça Txe8, porém é refutada com o truque 27...Dc4! (em cambio 27...Bxe6 28.Txe6 Dc4 29.Txe8 Txe8 30.Dxe8 Dxc2 31.De6+ Rh8 32.Df7 acaba em empate após 32...Dc1+ 33.Rh2 Df4+=) 28.Bd3 (a chave da ideia preta é a seguinte continuação, subministrada por Zajcev: 28.Txe8 Dxe2 29.Txf8+ Rxf8 30.Txe2 a5 onde os peões pretos são mais fortes que o cavalo branco) 28...Dc1+ 29.Rh2 c4 onde a vantagem preta não oferece dúvidas, por exemplo 30.Bc2 (30.Txe8 Txe8 31.Txe8 cxd3 32.Txf8+ Rxf8 33.Dxd3 Df4+ 34.Rg1 Rg8–+) 30...Bxe6 31.fxe6 Be7 (31...d5!? 32.Bg6 Bd6+ 33.g3 Te7 34.Bf7+ Rh8 35.Ch4 Db1 36.Cg6+ Rh7 37.Ch4 Txf7 38.exf7 Tf8 39.Df3 Bc5 com clara vantagem preta) 32.Cd4 d5 33.Bg6 -uma a continuação aportada mencionada por Kasparov, que a considera uma tentativa de salvamento, apesar das pretas sempre ter "o xeque Bd6 em reserva"-
Para entender o seguinte lance, nada melhor que dar a palavra ao seu autor: "As brancas têm uma fina posição de ataque, porém nenhuma ameaça direta até agora. Para elas aparecer, esse lado deve de maneira urgente por as suas últimas reservas na batalha -seu cavalo de f3-, e depois forçar a troca ...Bxe6, sem permitir a troca de damas, para explorar o afastamento da dama branca do seu rei. Assim foi como o modesto avanço do peão g foi concevido" (Kasparov)

27.g3!


"Concedendo uma boa casa ao rei e simultaneamente preparando o translado do cavalo à casa h4. 27.g4 era tentadora com a ideia g5, porém evidentemente Kasparov percibiu que o enfraquecimento da casa f4 podia se fazer senter no futuro, e então ele evitou essa continuação" (Geller, Lein). Agora, a escolha preta não é menos difícil. Karpov deve decidir seu lance entre uma série de promissorias continuações, que requerem de adequado cálculo. Elas devem, claro, estar dentro do plano geral de avanço na ala da dama, mas ao mesmo tempo se deve manter um olho na defesa, considerando que as peças brancas estão perigosamente perto da posição do rei preto. Após determinar que nenhúm perigo imediato ameaça ao seu rei, o condutor das pretas entende que é possível seguer com um movimento de peão na ala da dama, criando mais pressão

27...a5!?

"Como as alternativas naturais ...d5 ou ...c4 ajudam às brancas à ativar seu cavalo, Karpov avança o peão a, que no caso de chegar à sexta fileira vai ser uma real diversão" (Kasparov). Algumas alternativas são:
a) 27...c4 foi recomendada por Tal. As brancas têm equilíbrio aqui continuando com 28.De2 Bxe6 29.Txe6 Dc3 30.Txe8 Txe8 31.Dxe8 Dxc2 32.De6+ Rh7 (porém não 32...Rh8 33.Ch4+-) 33.Dg6+ Rg8=;
b) Korchnoi e Christiansen fizeram a sugerencia 27...d5 28.Ce5 (28.Txe8!? é uma possível opção) 28...d4 (28...Bxe6 29.fxe6 Txe6 30.Cd3 Dd4 31.Txe6 c4 com compensação) 29.Tb3 Bxe6 onde a continuação de Kasparov, 30.fxe6 Txe6 31.Txb4 Txe5 32.Tb1 c4 é talvez favorável ao primeiro jogador -se bem que o então campeão mundial indica empate como resultado mais provável na linha 33.Dd2 d3 34.Bd1;
c) 27...Db2!? é uma tentativa (não mencionada nos livros que se ocupam do match até onde conheço) de levar a dama preta à ala do rei (possivelmente à casa f6 após tomar em e6), combinando as ações ofensivas na ala da dama com a defesa do monarca. No meu ponto de vista, este lance pode ser o mais correto nesta posição; linhas como 28.De2!? (28.Tb3 Da2 29.Tbe3 c4 30.Cd4 d5–+) 28...Bxe6 29.fxe6 Df6 30.Dd3 g6 31.Dd5 Be7 32.Ch4 parecem favoráveis às pretas, se bem que são ainda complexas e concedem ao primeiro jogador certa compensação.


Depois de algumas aventuras mais -onde as brancas jogaram todas suas cartas à iniciativa na ala do rei-, o jogo acabou em empate:

28.Ch4 d5 29.De2 Dc4 30.Bd3 Dc1+ 31.Rg2 c4 32.Bc2 Bxe6 33.Txe6 Txe6 34.Dxe6+ Rh8 35.Cg6+ Rh7 36.De2 Dg5 37.f6 Dxf6 38.Cxf8+ Rg8 39.Cg6 Df7 40.Ce7+ Rf8 (as brancas têm xeque perpétuo) ½–½


 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Mate em três lances

Alfredo de Musset (1810-1857) foi um reconhecido escritor francês, representante da corrente romanticista, e também apaixonado pelo xadrez. Entre outros, compús o seguinte probleminha, um mate em três lances cuja solução publicaremos na proxima quinta feira: